sexta-feira, 10 de junho de 2022

Revelação do Propósito Eterno de Deus

 

Revelação do

Propósito Eterno de Deus

 

"Disse o Senhor: Ocultarei a Abraão o que estou para fazer?" (Gênesis 18.17).

"Teve José um sonho e o relatou a seus irmãos (...) Teve ainda outro sonho e o referiu a seus irmãos" (Gênesis 375, 9).

"Chamou Jacó a seus filhos e disse: Ajuntai-vos, e eu vos farei saber o que vos há de acontecer nos dias vindouros" (Gênesis 49.1).

"Segundo tudo o que Eu [Deus] te mostrar [a Moisés] para modelo do tabernáculo e para modelo de todos os seus mó­veis, assim mesmo o fareis" (Êxodo 25.9).

"[Deus] e ensina aos mansos o Seu caminho. (...) A intimi­dade do Senhor é para os que O temem, aos quais Ele dará a conhecer a Sua aliança" (Salmos 25.9, 14).

"[Eu, Paulo,] jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus" (Atos 20.27).

"[Eu, Paulo,] em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministé­rio que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus" (Atos 20.24).

"Tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de Deus a mim [Paulo] confiada para vós outros; pois, segundo uma revelação, me foi dado conhecer o mistério, conforme escrevi há pouco, resumidamente (...) do qual fui constituído mi­nistro conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante do Seu poder" (Efésios 3.2, 3, 7).

 

O propósito eterno de Deus nunca pode ser entendido ou alcançado pela mente. Ele precisa ser revelado. Todo o serviço para Deus começa com consagração ou é baseado na entrega. Mas tal consagração ou entrega só vem por meio da revelação. Na verdade, a obra de Deus (não nossa obra, mas a obra de Deus através de nós) só começa quando há revelação. Exteriormente é a visão celestial; inte­riormente é a revelação.

Deus não quer que façamos uma espécie de trabalho ge­nérico ou uma miscelânea de obras para Ele. Ele deseja que conheçamos todo o Seu plano e trabalhemos com Ele em di­reção a um plano e propósito claros. Pois não somos apenas Seus servos, mas também Seus amigos (Jo 15:15).

Toda entrega e consagração é valiosa, mas, falando franca­mente, só depois da revelação é que a entrega e a consagração podem ser de muito valor, pois somente assim podem ser com­pletas. Nossa entrega antes dessa revelação só tem em vista a salvação. "Ele me comprou com Seu sangue, Seu amor por mim é indescritível. Por isso, devo dar a mim mesmo a Ele. Eu devo dar a mim mesmo e tudo o que tenho por causa do Seu amor e graça salvadora." Mas depois da revelação, isso é totalmente diferente. Quando vemos o eterno propósito de Deus, faz-se necessária uma tremenda entrega de nós mesmos para este propósito, com uma entrega que nunca antes sonhamos; algo mais profundo e absoluto. Paulo disse: "Não fui desobediente à visão celestial" (At 26.19). Ele podia passar por qualquer coisa e suportar tudo por causa da visão celestial.

José foi uma prefiguração perfeita do povo de Deus, reu­nindo em si mesmo todos aqueles que foram antes dele. Mas a crise veio para José quando ele teve seus sonhos. Isso foi sua revelação, na qual viu o propósito de Deus e sua própria parte nele. Isso foi o início da obra de Deus por meio dele. Moisés teve de subir ao cume do monte a fim de receber o padrão para a vida do povo de Deus: os Dez Mandamentos e toda a lei de Deus. Mais tarde, ele precisou obter o modelo do tabernáculo: "Vê que faças todas as coisas de acordo com o modelo que te foi mostrado no monte" (Hb 8.5).

A parte mais insignificante da obra que fazemos para Deus temos de fazê-la segundo o modelo a nós mostrado no monte, isto é, de acordo com a revelação que Deus nos deu do Seu pro­pósito e plano eternos. Mas a revelação que José, Moisés e outros tiveram foi individual. Mas não é assim hoje. Hoje a revelação é para a Igreja. Não é uma revelação diferente para cada indivíduo, mas a mesma revelação é dada para a Igreja inteira.

 

A OBRA ESPIRITUAL TEM COMO BASE A REVELAÇÃO

Toda obra espiritual para Deus surge da revelação. A parte da revelação do propósito eterno de Deus não pode haver verdadeira obra espiritual. Pode haver obra para Deus espalhada e misturada, e que é abençoada por Ele, mas não pode ser verdadeiramente chamada obra espiritual ou trabalho conjunto com Ele, a menos que surja da revelação quanto ao propósito eterno de Deus. Deve ser revelação e não apenas compreensão mental; entender e ver intelectualmente é de nenhum valor. É preciso ser um "ver" em seu espírito: ver qual é a esfera e limite da operação de Deus.

Somente a revelação pode tratar tanto com a obra como com o obreiro. Essa luz do céu nos esmaga e faz em pedaços a nós e à nossa obra. Se ela for mera doutrina ou ensino, ela nos deixará depois de algum tempo. Ela se vai, se evapora, por assim dizer. Mas se for luz ou revelação, ela é a nossa vida e não poderemos nos livrar dela.

Um dia o Senhor Jesus disse: "Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia (...) Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue permanece em Mim, e Eu, nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e igualmente Eu vivo pelo Pai, também quem de Mim se alimenta por Mim viverá" (Jo 6.54, 56, 57). Muitos ficaram escandalizados com isso e O deixaram. Mas os discípulos, quando lhes perguntou se eles também O queriam deixar, responderam: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna" (v. 68).

Quando vemos a luz, ela se torna nossa vida, e não temos mais alternativa. Não temos outro caminho, pois é nossa pró­pria vida. Se não pudermos seguir aquele caminho, morremos. Mas, graças ao Senhor, não é algo que tenhamos de lembrar ou tentar recordar. Se vimos, vimos e sempre veremos. Nunca nos deixa. Descobrimos que o Corpo responde a tudo[1]: é nossa própria vida. Não podemos viver fora do Corpo.

 

A Quem Foi Revelado?

Cada item espiritual que possuímos chegou a nós através da revelação. Ele chega a nós nesta ordem: (1) luz, (2) revelação, (3) vida, isto é, a vida de Deus, (4) todas as riquezas Dele, tudo o que Ele é.

Se Deus quiser fazer uma coisa nova, algo especial, em Xangai, na China ou em qualquer outro lugar no mundo, Ele revelará isso a você ou esconderá de você? Quantos existem em Xangai nos quais Ele pode confiar caso decida fazer algo ali?

Tenhamos clareza de que é somente aos Seus amigos mais íntimos e queridos que o Senhor revelará Seus segredos e pla­nos. Isso deveria ser algo para todos nós considerarmos sole­nemente.

 

 A Vida Edifica

 

 "A graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo. (...) E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do Corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, a medida da estatura da plenitude de Cristo" (Efésios 4-7, 11-43).

"A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso. Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente (1 Coríntios 12.7-11).

"O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja. Eu quisera que vós todos falásseis em outras línguas; muito mais, porém, que profetizásseis; pois quem profetiza é superior ao que fala em outras línguas, salvo se as interpretar, para que a igreja receba edificação" (1 Coríntios 14:4, 5).

"Não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiên­cia vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica" (2 Coríntios 3.5, 6).

"Tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos (...) Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustia­dos; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a Sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida" (2 Coríntios 4.1, 7-12).

 

Se não virmos o propósito eterno de Deus, nunca veremos qual é a obra de Deus. A obra inteira de Deus deve ser feita na Igreja e através da Igreja. Tal obra tem como alvo formar e edificar o Corpo de Cristo; esta obra deve ser feita por todo o Corpo e não apenas por indivíduos ou missões isoladas ou por atuações independentes da Igreja. Tal obra da Igreja deve vir inteiramente de Deus e ser para Seu Filho.

Para sermos co-obreiros com Deus devemos ter revelação, caso contrário não estaremos trabalhando em Seu propósito eterno e para Seu propósito eterno. O início de toda a obra para Deus é uma entrega e oferta de nós mesmos que aconteça como resultado da revelação. A razão pela qual é necessário que se tenha revelação é porque a luz de Deus mata tudo o que não vem Dele, tudo o que vem do homem. Quando a revelação chega, descobrimos que não há alternativa nem outro caminho para seguir. Ou seguimos este caminho ou morremos.

 

 

DUAS FORMAS DE EDIFICAR O CORPO

Como podemos ser co-obreiros com Deus e edificar o Cor­po? Se nossa obra é apenas salvar pessoas, o obreiro que estiver fazendo isso vai dar a impressão de estar realizando algo im­portante. Em certo sentido, vai parecer que é uma obra para o homem. Mas se nossa obra tem como propósito edificar o Corpo, então o homem está completamente cortado; porque o Corpo é Cristo. Tudo é para Cristo e, portanto, nada do homem pode entrar.

Em 1 Coríntios 12 temos o registro dos muitos dons do Es­pírito, e Paulo enfatiza tanto as palavras quanto os atos. Mas em 2 Coríntios 4 só temos atos. Existem duas formas diferentes de edificar a Igreja. Na verdade, qual é o valor desses dons do espírito na edificação da Igreja? O que é esse valor compara- do ao valor da vida no Espírito? Paulo, em 2 Coríntios, capítulos 3 a 10, enfatiza o que é o ministério da nova aliança. Esse minis­tério não está nos dons, mas na suprema grandeza do tesouro contido no vaso de barro, isto é, Cristo dentro dele.

Em 2 Coríntios lemos: "Levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a Sua vida se manifeste em nosso corpo. (...) De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida" (4.10, 12). Isso é totalmente diferente de Roma­nos 6, pois a idéia aqui é da contínua operação da morte. A morte de Cristo opera e continua operando dia a dia em nós, resultando na vida que flui para os outros. Assim a Igreja é edificada.

Aqui também temos duas maneiras pelas quais a Igreja é edificada: (a) em 1 Coríntios 12, pelos dons do Espírito; e (b) em 2 Coríntios 4, pela operação da morte em nós, para que a vida possa operar nos outros.

Qual das duas mais tem edificado você? Sua vida interior tem sido edificada mais pelos dons do Espírito ou por aqueles que você sabe que conhecem a aplicação da cruz na vida in­terior e levam sempre neles o morrer de Jesus para que a vida de Jesus seja manifestada? Isso é carregar a cruz. Que a morte nunca cesse de operar em você e em mim, para que também a vida nunca cesse de fluir para os outros.

Vemos pessoas ricas no uso dos dons: dom de cura, dom de expulsar demônios, dom de eloqüência ou de falar em línguas. E pensamos no quão ricas, abençoadas e usadas por Deus são tais pessoas. Mas isso é realmente assim? Estes são os dons da meninice. Eles são para o estágio de bebê, útil e necessário para aquele período, mas devemos crescer.

O que realmente edifica e mais ajuda não são os dons ou eloqüência daqueles que os possuem, mas a vida daqueles que conhecem profundamente a cruz, que a conhecem no íntimo e diariamente, e com os quais entramos em contato. Tome, por exemplo, um grupo de cristãos recém-salvos. Nos primeiros anos o Senhor pode lhes conceder dons, para que fiquem maravilhados com Seu poder e glória, e para fortalecer sua fraca fé. Mas uma vez que ela esteja suficientemente forte, Ele removerá os dons e trará a cruz. Existem graves perigos associados com os dons, e o maior deles é o orgulho espiritual. Alguém pode se levantar no Espírito (isto é, o Espírito derramado[2]) e pronunciar umas poucas frases maravilhosas que ninguém mais pode pronunciar. Então, ele pensa: "Sou mesmo importante!". Todavia, sua vida interior pode ser in­fantil comparada com outro crente que não tem os dons, mas conhece profundamente a cruz.

Deus concede soberanamente os dons a alguém aqui e ali para que possam servir como Seus porta-vozes por algum tempo, pois neste período nada mais será entendido porque são bebês, e Ele não tem como encontrar-nos em outro nível qualquer. Na verdade, Ele usará qualquer boca, até mesmo a de um jumento. Mas este c um ministério limitado, do tipo "jardim-de-infância", e é propenso à vaidade.

O que Deus realmente quer e está aguardando e traba­lhando para obter somos nós, os vasos nos quais as palavras dadas por Ele para as expressarmos sejam tomadas por Seu Espírito e entretecidas no mais íntimo do nosso ser pela cruz, até se tornarem nossa vida; somente então nosso ministério será de vida, vida que flui sempre da morte que opera em nós continuamente. Sendo assim, todos os que confiam nos dons são tolos, porque estes dons não mudam o homem interior. Uma igreja que procura se edificar por meio dos dons sempre acabará sendo uma igreja carnal, porque esta não é a forma de Deus para edificar a Igreja, a não ser no estágio da tenra infância2.

 

SEU MÉTODO É VIDA

O método de Deus é: vida e por meio da vida. Muitas vezes vamos a uma reunião e certo irmão sem cultura e iletrado ora ou se levanta e diz algumas palavras. Talvez o que ele fala não seja tão significativo, entretanto você se sente abençoado no mais íntimo do seu ser. "Um abismo chama outro abismo" (Sl 42.7). O que aconteceu é que você tocou a vida e, assim, foi edificado, fortalecido e ajudado. Aquele irmão ministrou vida a você.

Os cristãos que estão "inteiros" ou "intactos" nunca podem ministrar vida, pois apenas os que foram quebrados podem ministrá-la. Somente através do quebrantamento deles é que a vida pode manifestar-se. Esse é o método perfeito de Deus. Que o Senhor derrube todo aquele que é orgulhoso; que Ele nos quebre, quebre e nos quebre de novo. Que Ele trate com toda a nossa vida natural. Que a cruz seja aplicada drástica e profundamente, a fim de que a vida seja ministrada aos ne­cessitados do Senhor.

  

5 - O Quebrantamento Libera a Vida

 

 "O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará" (l Coríntios 13.8).

"Cresçamos em tudo Naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o Corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor" (Efésios 4.16).

"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. (...) Nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem (...) as que se não vêem são eternas" (2 Coríntios 47, 17,18).

 

Existem duas maneiras de servir o Corpo: uma, através do dom, é objetiva; e a outra, através da cruz, trabalhada, lavrada interiormente pelo Espírito, é subjetiva. Em algumas igrejas locais1, Deus precisa usar uma dessa maneiras e, em outras igrejas locais, Ele pode usar a outra. O dom espiritual pode ser chamado de "empréstimo Divino": o Senhor empresta Seu próprio poder e dons a você. Isso é algo realmente fora de você, separado de você. Tomemos Sansão como exemplo: ele podia fazer muitas coisas incomuns, coisas bem singulares e diferentes de todas as outras; todavia, o homem mesmo não era de modo algum incomum aos olhos de Deus. Deus simplesmente empresta Seu poder a pessoas comuns por algum tempo porque Ele tem uma necessidade especial, mas isso não significa que o indivíduo é uma pessoa de santidade ou de valor espiritual especial. Na verdade, mais tarde ele pode até dar provas de ser o contrário disso.

 

NÃO FAZER, MAS SER

Hoje a igreja organizada enfatiza o que a pessoa diz e o que faz, mas presta pouca atenção àquilo que a pessoa é. Muitos obreiros jovens desejam ardentemente falar com poder e elo­qüência, anseiam falar de forma brilhante a fim de mover e ajudar as pessoas. Eles falham em reconhecer que este não é o ponto vital. A questão vital é: quem e o que você é? O que tem valor, a questão de superior importância não é que você tenha recebido um dom e, por isso, seja capaz de falar, mas sim que você conhece o Senhor e, por isso, pode falar.

Não reunimos um grupo de jovens obreiros aqui[3] visando ensinar doutrinas e até mesmo a Bíblia a eles, ou para ensinar-lhes a pregar o evangelho ou a buscar dons e mesmo o poder, mas para ajudá-los a ser melhores homens e mulheres, aprender a cruz. Existem muitos lugares aos quais eles poderão ir em busca dos dons ou para aprender a pregar, mas não onde possam aprender a cruz. Se a esperança deles é adquirir mais conhecimento e dons a fim de ajudar os outros, então aqui[4] não é o lugar.

Os dons são necessários? Sim, eles são, até certo ponto. To­davia, não devem continuar além do ponto em que o Senhor busca interrompê-los para trazer a operação da cruz, o que­brantamento, o enfraquecimento e o conhecimento do Senhor - nesse sentido não precisamos de expressões sobrenaturais. Pelo fato de a boca falar do que está cheio o coração, e porque Cristo foi trabalhado interiormente pelo Espírito Santo que ha­bita interiormente, é que posso expressar a vida interior Dele. Podemos dizer hoje exatamente a mesma coisa que dissemos dez ou quinze anos atrás, mas será algo totalmente diferente. "Sim, eu conhecia e cria nestas coisas, mas agora elas foram interiormente trabalhadas no meu próprio ser. Sou eu, isto é, Cristo em mim."

 

O QUEBRANTAMENTO PRODUZ O MINISTÉRIO

Isaque representa aquele que tinha tudo por meio dos dons. Observe que tudo o que ele recebeu veio do seu pai. Era algo objetivo para ele, algo fora dele. Até mesmo quando Isaque abençoou os filhos, ele ficou bastante confuso, pois estava quase cego e confundiu os rapazes.

Não foi assim com Jacó, pois ele foi quebrado e realmente despedaçado pelo Senhor; e o Espírito de Deus trabalhou interiormente a própria vida de Deus nele, até que ele disse: "A Tua salvação espero, ó Senhor!" (Gn 49.18). Quando abençoou seus filhos, ou melhor, os filhos de José, Jacó sabia exatamente o que estava fazendo. Ele o fez com inteligência. Ele disse: "Eu sei, meu filho, eu o sei" (48.19). Jacó tinha luz, Jacó tinha revelação, porque havia sido quebrado.

Muitos perguntam: "Por que muitos servos bastante usados por Deus falham ou terminam sendo colocados de lado, isto é, não são mais usados por Ele?" Quem pode dizer que Deus já os havia usado? E se Ele usou, foi apenas concedendo os dons. Deus, em Seu direito soberano, escolheu alguém para lhe conceder um dom temporário, para ser usado por ele durante algum tempo, porque o homem não era interiormente digno de qualquer outro ministério.

"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Co 4.7). O Senhor nos conduz através de provas de fogo as quais não poderíamos suportar nem por elas passar, situações em que não seríamos vitoriosos e nas quais seríamos liquidados; todavia, é exatamente aí que descobrimos que aquilo que é precioso em nosso interior funciona. 

Por causa daquilo que é precioso dentro do vaso, por causa da vida de Cristo no interior, nós seguimos até o fim. Somos vitoriosos onde não poderíamos ser. Levamos no corpo o morrer de Jesus e, conseqüentemente, a vida de Jesus se torna manifesta.

Você só pode ajudar as pessoas na proporção em que você mesmo tenha sofrido. Quanto maior o preço pago, mais você pode ajudar os outros; quanto menor o preço, menos você pode ajudar os outros. A medida que você passa por provas de fogo, testes, aflições, perseguições e conflitos, e à medida que você permite ao Espírito Santo operar o morrer de Jesus em você, a vida, a vida de Cristo, fluíra para os outros.


WATCHMAM NEE

 

O que é a Obra de Deus?

 

O que é a Obra de Deus?

 

"Prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo,para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Filipenses 3.12-14).

 

"E nós na qualidade de cooperadores com Ele" (2 Coríntios 6A).

 

Deus tem Sua obra. Essa não é a sua nem a minha obra, tampouco é a obra desta missão ou daquele grupo. É a obra do próprio Deus. Gênesis 1 nos diz que Deus trabalhou e, depois, descansou. No início, Deus criou a luz, os seres vivos, o homem e assim por diante. Ninguém, a não ser Ele, poderia realizar essa obra da criação. E hoje Ele tam­bém tem Sua obra, que não é a obra de homem algum e que homem algum pode fazer. A obra de Deus não pode ser feita por ninguém, a não ser pelo próprio Deus. Quanto mais cedo aprendermos isso, melhor, porque as obras, as idéias, os métodos, o zelo, a seriedade, os esforços e as atividades incansáveis do homem não têm qualquer lugar no que Deus está fazendo. O homem não pode ter mais parte na obra de Deus hoje do que poderia ter nos tempos remotos da criação.

Aos filipenses, Paulo diz: "Prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus". O Senhor Jesus tem um propósito especial e específico ao nos alcançar, e é esse propósito específico que desejamos alcançar. Ele tem um propósito, e esse propósito é que ele nos ganhe a fim de sermos cooperadores, co-obreiros com Ele. Entretanto, ainda é verdade que não podemos fazer a obra de Deus, visto que toda ela é absoluta e totalmente Dele.

No entanto, nós somos Seus co-obreiros. De modo que, por um lado, devemos reconhecer que não podemos tocar, nem mesmo com o dedo mínimo, a obra de Deus e, por outro, somos chamados para ser co-obreiros com Ele! E foi com este fim que Ele nos alcançou. O Senhor tem um propósito definido na salvação - e um propósito claro e específico ao nos salvar -, que é nos ter como Seus co-obreiros.

O que, então, é a obra de Deus? Efésios nos mostra isso de forma mais clara que qualquer outro livro no Novo Testamento. O capítulo 1 diz: "Assim como nos escolheu Nele antes da fun­dação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele" (v. 4); no capítulo 2 lemos: "Para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da Sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus" (v. 7). Lemos também no primeiro capítulo: "Desvendando-nos o mistério da Sua vontade, segun­do o Seu beneplácito que propusera em Cristo" (v. 9)

Em todas as reuniões da igreja freqüentemente há aqueles que se levantam e falam de acordo com sua própria mente. Eles não estão falando no Espírito, mas estão "fora do tom". O que dizem é de pouco ou nenhum valor. Mas na criação de Deus, conforme Ele determinou, não existe nada fora do tom.

Tudo é para o Filho, tudo vem de Cristo e para Cristo. Nada está fora Dele, pois Deus incluiu tudo em Cristo. "Nele foram criadas todas as coisas (...) Tudo foi criado por meio Dele e para Ele" (Cl 1.16). Tudo está em perfeita harmonia no plano de Deus. E Deus vai levar tudo em Sua criação a este nível e a este lugar de perfeita harmonia. Nesse sentido, não podemos fazer nada - Deus está fazendo tudo e tudo Ele fará.

 

QUEM É O CO-OBREIRO DE DEUS?

O co-obreiro de Deus é a Igreja. Em dois versículos de Efé­sios citados anteriormente temos um vislumbre das duas eter­nidades[1]: (1) "Nos escolheu Nele antes da fundação do mundo" e (2) "Para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da Sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus". E o nome do vaso por meio do qual isto é feito é "o Corpo de Cristo", que é o recipiente de Cristo.

Quem é, então, um co-obreiro de Deus? Bem, não é al­guém que deseja trabalhar para Deus, alguém que vê uma necessidade e deseja atendê-la; não é nem mesmo alguém que conduz pessoas à salvação; antes, é aquele que faz o que Deus lhe designou em Seu eterno propósito, e ele faz apenas isso. Se enxergarmos realmente aquilo para o que fomos conquistados por Cristo Jesus, todos os nossos labores, todas as nossas obras formais para Ele serão esmagados e feitos em pedaços.

O alvo e objetivo de Deus em tudo é revelar Seu Filho, manifestar Seu Filho, mostrar a suprema riqueza da Sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Este é Seu eterno propósito. Este é o objetivo que você tem na obra que está fazendo agora? Se for menos do que isso, então você não é um co-obreiro, um cooperador com Deus.

Você pode perguntar: "Como saberei se estou trabalhando junto com Deus?". Isso pode ser facilmente respondido. Você está satisfeito com o que está fazendo? Se você não satisfaz o coração de Deus, você mesmo não poderá se sentir satisfeito. Não se trata de comparar sua obra com a de qualquer outro. A questão é se tudo o que você realiza é bom, isto é, bom aos olhos de Deus, aceitável a Ele ou que procede Dele e é alinhado com Seu eterno propósito.

Paulo declara: "Prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus". Não precisamos olhar ao redor e criticar os outros, desejando saber se é possível que todo o resto esteja errado e nós, poucos, estejamos certos. Isso não tem qualquer valor e é prejudicial. Não se incomode com os outros. Asseguremo-nos de nós mesmos estarmos pros­seguindo "para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus".

 

O QUE É A IGREJA?

Quando começamos a procurar aqui na terra por alguma coisa - uma igreja, um testemunho, um movimento, uma dou­trina, uma coisa exterior visível e tangível, descobrimos que ela se torna imediatamente mais outro "cristianismo técnico". E apenas uma coisa terrena, morta e sem utilidade. O Corpo de Cristo, entretanto, é vivo e espiritual. Mas quando está morto, se torna imediatamente apenas uma coisa.

Devemos ser simplesmente um grão de trigo que cai na terra e morre e produz muito fruto. Isso é seguidamente repetido através das eras. É um assunto sempre e para sempre celestial; nunca existe o toque da terra nele. A Igreja não é uma coleção de judeus, gentios, brasileiros, americanos, chineses e outros. Por acaso não está escrito em Colossenses: "O novo homem (...) no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos" (3.11)?

Muitos acham que o que nos permitirá cruzar os portões do céu é ter um pedaço de Cristo em nós. Esse é um conceito hor­rível, porque na entrada do céu está a cruz, e nesta cruz você e eu e todos os outros seres humanos fomos crucificados. Todo judeu, grego, brasileiro, americano, chinês, e qualquer outro, foi pregado naquela cruz e nunca chegará ao céu. Somente o que entra é Cristo; nada de nós jamais entrará. Isso é a Igreja. Qualquer coisa em nós e sobre nós que seja Cristo ou de Cristo é a Igreja; tudo o que em nós teve origem em nós - qualquer coisa que não seja o próprio Cristo em nós - não é a Igreja e nunca entrará no céu; pelo contrário, será destruído.

Aquilo em nós que é a vida sem mistura de Cristo é o que Deus eternamente reconhecerá e é com isso que Ele contará para trabalhar. E somente esse elemento é que poderá trabalhar junto com Deus.

 2 - A Obra de Deus nesta Dispensação


 "A graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo (...) E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do Corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilida­de, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo Na­quele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o Corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor" (Efésios 4-7, 11-16).

 

Vamos considerar agora o seguinte assunto: o que é a obra de Deus nesta dispensação? Encontramos a resposta na passa­gem de Efésios citada acima: a obra de Deus nesta dispensação é formar o Corpo de Cristo. E a obra da Igreja é exatamente a mesma, isto é, formar o Corpo de Cristo: "Todo o Corpo (...) efetua o seu aumento para a edificação de si mesmo em amor". Nenhuma missão, escola bíblica, grupo evangelístico ou coisa semelhante pode jamais tomar o lugar da Igreja ou fazer a obra da Igreja.

 

PARA O APERFEIÇOAMENTO DOS SANTOS

A típica Igreja de hoje está preocupada principalmente com a salvação de almas, mas no Novo Testamento, como em Efésios, não vemos isso. Cristo deu alguns para serem apóstolos, alguns para serem profetas, outros para serem evangelistas e outros para pastores e mestres. Por quê? Para o aperfeiçoamento dos santos. A principal preocupação da Igreja hoje parece ser salvar os homens do inferno, da punição, da dor e da perda. Isso é bom, mas não é o propósito de Deus para a Igreja. Não é Sua obra para a Igreja.

A tarefa que Ele designou para a Igreja é "o aperfeiçoamento dos santos", porque a obra de Deus e a obra da Igreja é a formação e edificação do Corpo. É-nos dito que, tendo em vista a encarnação do Senhor Jesus, Deus formou um Corpo para Ele, Cristo; mesmo assim, o Senhor Deus está também preparando um Corpo para Ele hoje. Os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres são dados à Igreja para edificarem o Corpo, isto é, eles, como membros do Corpo, são para a edificação do Corpo. Os membros do Corpo são para o Corpo. Os dons para a Igreja, que são membros do Cor­po, são para o Corpo. O Corpo é para edificar o Corpo.

 

NÃO DOUTRINA, MAS VIDA

Pode a obra de Deus estar fora da Igreja em alguma missão, grupo evangelístico ou qualquer outro órgão? Nunca! Porque tem de ser a própria Igreja - o Corpo - que faz a obra do Corpo. Isso decide as considerações sobre obreiros ou missões independentes, grandes ou pequenas, notavelmente organiza­das ou motivadas pela fé. Se estão separadas do Corpo, estão separadas da ordem de Deus[2].

Isso não é um princípio ou doutrina, mas é uma questão de vida. Se você tiver revelação em relação a isso, então, no momento em que fizer a menor coisa individualista e não re­lacionada ao Corpo, você sentirá e saberá que está errado, mesmo sendo uma coisa pequena. Não existe absolutamente qualquer lugar para a independência ou individualismo, pois isto é o ego, isto é você, não é Cristo.

Você entende isso como doutrina? Se você não tem consci­ência do Corpo, então seu entendimento está na esfera mental e não lhe vem por revelação. Se for assim, é algo que você rece­beu de fora, não é algo que veio do interior. Não é espontâneo e não é vida para você. Pelo contrário, é algo em sua mente e não uma revelação; caso contrário, você teria consciência do Corpo. Se é algo que você pode jogar fora, de que pode livrar-se ou pôr de lado, então você não tem revelação sobre o Corpo.

Se você está realmente no Corpo, como uma experiência resultante de revelação, você não tem como se livrar dele. Você não tem outro caminho, não existe outra escolha - só existe um caminho para você.

Se você não seguir este caminho, não existe outro caminho para você, simplesmente porque você viu o Corpo por revela­ção. Se for revelação será algo interior, no seu espírito, e não algo exterior, em sua mente.

Fora da Igreja, que é o Corpo de Cristo, não há possibilidade de trabalhar para Deus. Se você for a um lugar onde existe uma igreja verdadeira, isto é, uma expressão do Corpo de Cristo que é realmente Sua igreja, você não pode trabalhar separado daquela igreja, isto é, não relacionado com ela. Não abrigue a idéia de que os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres são os únicos obreiros que Deus estabeleceu no Corpo e para o Corpo. Realmente não são os únicos; cada membro do Corpo é designado por Deus para trabalhar para Deus e para o Corpo para a edificação do Corpo. Não é que alguns são obreiros e outros são simplesmente membros do Corpo. Todos são obreiros. O Corpo de Cristo deve edificar a si mesmo. Tudo deve vir do Corpo e tudo deve ser para o Corpo.

Não estamos aqui para estabelecer algo, para estabelecer uma "coisa", para sermos um modelo de culto, para represen­tar um novo movimento. Estamos aqui para representar uma expressão da vida de Cristo em Seu Corpo. Em Xangai[3], o que quer que seja do Senhor, quem quer que seja do Senhor, qualquer coisa e qualquer um que represente uma medida da vida de Cristo, nós os consideramos como pertencendo a nós. Eles são parte de nós, quer percebam ou reconheçam isso, quer não, e nós somos parte deles.

Se não for algo vivo, não é a Igreja. Uma coisa morta não pode ser Seu Corpo.

Geralmente o que mantém unida uma missão ou obra é um conjunto de doutrinas, algumas especiais, ou o próprio fundador, que pode ter sido um homem piedoso. Que o Senhor nos livre disso, pois tudo isso é morto. O Espírito Santo não pode apoiar tal coisa ou ministrar a ela, pois é uma "coisa", e o Espírito Santo só pode usar um organismo vivo: o Corpo, a Igreja. Toda obra deve sair da Igreja e toda obra deve ser para a Igreja, para a sua edificação.

O alvo de tudo o que mencionamos é encontrado em Efé­sios 4-13: "Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à me­dida da estatura da plenitude de Cristo". Isso nunca poderá ser realizado individualmente; só pode ser realizado e alcançado como um Corpo. Portanto, pecamos a Deus para tratar conosco e cortar todo o individualismo, todo pensamento próprio, toda decisão própria e toda a ação e movimento individualistas. Nossa vida inteira deve ser vivida no Corpo. Pecamos ao Se­nhor para nos ensinar como viver no Corpo. A vida do Corpo não é algo que possamos estudar, mas é algo muitíssimo natural e espontâneo, se estamos no Corpo por revelação.


WATCHMAN NEE

 

A ORAÇÃO PRIMITIVA

 

A ORAÇÃO PRIMITIVA


"Todos estes perseveravam unanimemente em oração, 

com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus" 

Atos 1:14

Neste texto temos um relato das últimas palavras de Cristo aos seus discípulos. Reuniram-se a Seu pedido e Ele encontrou-os e "e falou-lhes das coisas concernentes ao reino de Deus e estando com eles, ordenou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual (disse ele) de Mim ouvistes. Porque, na verdade, João baptizou em água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias". E logo de seguida foi retirado deles. Voltaram para Jerusalém, entregando-se à oração e súplica e "perseveravam unanimemente em oração". Estas são resumidamente as instâncias sobre esta solene reunião de oração. Proponho, pois,

1. Ver qual a razão de ser desta reunião de oração

2. As suas muitas características

3. Os seus muitos resultados

I. O objectivo principal desta reunião de oração seria tão só a derramamento do Espírito Santo sobre todos eles. Havia sido prometido desde Abraão, passando pelos tempos dos profetas de Deus, que dentro do contexto do advento salvador de Cristo o Espírito Santo fosse derramado sobre toda a carne. Cristo relembrou aos seus muitos discípulos desta grande promessa, instigando-os a permanecerem em Jerusalém até que a Promessa do Pai se cumprisse. Já os havia comissionado a que fossem pelo mundo inteiro pregar o evangelho a toda a criatura. Mas foi assim que lhes deu a entender que não se atrevessem a sair sem Seu Espírito e que não saíssem de Jerusalém sem que houvessem sido selados pelo poder do Espírito Santo. Para que melhor entendessem os mistérios deste baptismo de fogo, Ele referiu-se ainda ao baptismo de João Baptista, dizendo-lhes que "João baptizou em água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias".

Esta assembleia instituída para a oração, prolongou-se por dez longos dias. Desde a Páscoa, Cristo encontra-se com Seus discípulos durante quarenta dias seguidos. Depois subiu aos céus. A festa de Pentecostes, como nos sugere o nome, dava-se cinquenta dias depois da Páscoa. O intervalo desde a ascensão a Pentecostes, dez dias, foi quanto durou esta fabulosa reunião de oração. Lemos que até aquele dia de Pentecostes, eles "perseveravam unanimemente em oração".

II. Sobe as características principais desta reunião de oração, a primeira que se realça, é que as irmãs e os irmãos estariam conjuntamente presentes. Este é um facto proeminente e merece realce e destaque prontamente. O historiador sagrado que escreveu para nós este relato daquilo que lá se passou, parece querer revelar-nos isso mesmo. "Naqueles dias levantou-se Pedro no meio dos irmãos, sendo o número de pessoas ali reunidas cerca de cento e vinte". "Todos estes (juntamente com os onze) perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres e Maria mãe de Jesus e com os irmãos dele". Ninguém faltava ali. Que supõe você passaria na cabeça de Cristo se apenas dois ou três comparecessem para orar e os outros estivessem ocupados com aquilo que achariam ser de legitima responsabilidade sua? Se fossem indiferentes às necessidades do Reino de Deus por estarem interessados demais em seus próprios afazeres por o tempo ser curto e escasso? Mas, este não foi o caso, seguramente. Deus foi honrado nesta reunião.

Todos eles eram unânimes em glorificá-Lo. Todos estariam unânimes num só objectivo. Isto é inteiramente manifesto pelo facto de que todos, unanimemente, compareceram num mesmo local; e não em locais diferentes; e ali permaneceram fielmente até que uma resposta a uma promessa houvesse sido dada. Não apenas compareceram na reunião, como também lá ficaram, perseverando sempre unanimemente, durante estas longas sessões. Isto revela a seriedade daquilo que estaria em seus corações. Eles esperavam de dentro de si mesmos uma resposta a qualquer momento. Sabiam muito bem Quem havia prometido e eles creram n'Ele. É de esperar que a sua fé se transformasse numa grande expectativa muito bem definida, muito viva, muito coerente em plenitude de regalias de expectativa.

Acima de tudo transparece a sua união, unanimidade em tudo. Vezes sem conta nos é transmitido que estavam em uníssono entre eles mesmos, unidos e munidos dum mesmo desejo ardente e conclusivo, mas que podia e tinha porque ser atendido por Deus. As motivações desta oração de todos era pura e unânime em todos, transparecendo desde logo aquela união e unanimidade de coração e alma entre todos. Mas a unanimidade sem pureza de motivação nada é, de facto. Estavam também unidos na confiança que ali os detinha. Não vemos nenhum atalho para a incredulidade, entre eles; toda a sua comunhão era profunda e sadia. Todos perseveravam unânimes e sem qualquer hesitação. Eram instantâneos na perseverança, na oração, nos motivos, na confiança que tinham e por isso o seu objectivo foi alcançado também unanimemente. Não teriam como pensar sequer em abandonar seus postos de vigília sem que aquela promessa houvesse sido derramada sobre todos eles. Seus corações diziam "não Te deixaremos sem que nos hajas dado Tua bênção!" Que poderiam eles fazer sem o Espírito Santo de Deus?

E para além do mais, Cristo expressamente lhes houvera incumbido isso, de permanecerem ali até que houvesse chovido sobre eles aquilo que fora prometido desde longa data.

Já mencionei que os irmãos e as irmãs estavam lá todos. Isto seria contrariado por muitas doutrinas e práticas dos judeus de então, tal como hoje ainda é em muitos círculos. Muitos não admitem que as mulheres se sentem perto dos homens, durante as orações. É-lhes permitido sentarem-se nas muitas galerias das igrejas luxuosas, onde as põem como meras espectadoras de tudo o que se passa, como que com poder de as excluir do Reino de Sua graça sem fim. Nos actos públicos de devoção até serão aceites, mas nas grandes reuniões de grande importância, não. Porém, sob o Evangelho de Cristo não é assim. Aqui ninguém tem consciência de ser mulher ou homem, pois tudo o que se passa pessoalmente em seus corações unânimes é um anseio comum ma mesma proporção, na mesma liberdade e libertação de preconceitos e pecados de luxúria. Escravos e livres, mulheres e homens, amigos e inimigos, tornam-se unânimes sob a tutela de Cristo, quando esta é real. Todas as práticas e preconceitos hebraicos desvaneceram sob Cristo. É isto que acontece nos corações de quem de tudo foi liberto. Até Cristo, nada de igual se havia passado assim entre eles, onde estivessem totalmente livres de preconceitos e de tentações da carne. A particularidade deste facto é de realce e legítimo, revelando que uma nova era chegara, tanto na prática das coisas, como dentro dos corações dos homens.

Observem como não havia ninguém entregue a ser sectário, ninguém se separava de ninguém, ninguém se juntava a alguém &endash; e isto de comum acordo, sem que houvesse sido estipulado que assim fosse, sequer! Todos estavam de comum acordo como que por natureza, como se fossem um só coração, uma só alma movendo-se numa mesma direcção. Já imaginou se a igreja hoje tivesse razões de união, de coração e nunca por se aceitarem em pecado e criminalidade comum? A divisão entre membros de igreja era então, naquela época, coisa desconhecida. Nada se sobrepunha ao único desejo de seus mútuos corações, pois pulsavam num mesmo sentido. Deixaram der ser homem, de ser mulher ou criança para se entenderem? Apenas deixaram o pecado, cada um o seu! Não havia sequelas e dissensão, questões para discutir &endash; tudo era comum mesmo na diferença que sabemos que existia de facto. Diótrefes ainda não havia entrado na igreja para causar e ensinar a causar divisões. Podem-me censurar por haver já dito que a ambição para liderar sem ser por Deus com Seu aval e bênção, ganha terreno nos divisionismos e faz com que os sectários se multipliquem. Embora não seja este o assunto que nos traz aqui, quem não sabe quão verdade são estas coisas! Antes fossem mentira! Antes estivesse eu errado acerca disto!

Mais ainda &endash; não havia nem sombra dum porfiar, nem ligeiro nem pesado, contra ou a favor da verdade, ou contra medidas de justificação de quem está errado. Não havia ninguém para corrigir, todos sendo unânimes em tudo. Nem a suspeita tinha terreno nem semente para ser cultivada a dissenção e a má-língua. Não se ouvia ninguém a reclamar ou clamar que havia saído pouco edificado com a oração de alguém, ou mesmo muito edificado através da mesma. Nada importava senão que Deus ouvisse; tudo era comum porque todos eram limpos em todos os aspectos. Todos de um só acordo, de uma só voz, juntos num mesmo lugar por uma mesma causa com a mesma intensidade de desejo da promessa do Pai, numa mesma esperança em recebê-la. Uma reunião onde todos se derreteram uns com os outros por tudo aquilo que tinham em comum, por dentro e por fora. "Quão bom é que os irmãos vivam em união!" E por fim, era uma reunião séria, rodeada de seriedade real, nada de apatia na salvação do mundo. Nada de piadas para manter o espírito em ânimo leve, pois o ambiente estava saturado de seriedade leve, mas nunca leviana &endash; todos tinham um mesmo espírito nisso. Não havia pesos mortos naquela reunião, nem uns mais vivos que outros, pois todos eram um no essencial. Todos tinham e manifestavam um mesmo calor de coração, com uma mesma suplica até que fosse ouvida. Não perdiam tempo com banalidades, pois todas as promessas de Deus estavam sobre seus ombros. Foram eles que começaram as grande dispensação na qual todo o crente hoje tem de entrar por ele também.

III. Sobre os resultados desta oração unânime. Serei breve, pois embora as consequências fossem tremendas, a resposta foi prática e determinante. Três mil pessoas foram convertidas &endash; mesmo sob um pequeno sermão. O Espírito Santo desceu sobre os discípulos com grande poder na Sua simplicidade actuante e dali deflagrou uma continuidade com não mais parou até haver entrado pecado na igreja. Diariamente eram acrescentados milhares de espíritos em uníssono àquela igreja primitiva. Aquela pequena e insignificante turma de pescadores e pecadores arrependidos logo se fez multiplicar e difundir por toda a parte. Nada mais grandioso se havia feito debaixo do sol por humanos. A fé tornou-se viva e comum em muita gente ao mesmo tempo.

Breves apontamentos:

Esta reunião deverá sempre ser tida em conta como um modelo a seguir &endash; substancialmente em seu espírito empreendedor, no seu alcance final, em como levou a que se criassem as circunstâncias para que muitos se salvassem. Em resumo, tudo aquilo que uma reunião de oração deve ser. Nada impede que hoje os crentes em qualquer parte do mundo consigam igual feito ou melhor.

Mesmo assim, quem não vê que nada disto se passa hoje. Seriam as pessoas diferentes das que existem hoje? Há mais prostitutas que as que estavam naquela reunião de oração? Maria e Madalena estavam lá, indiscutivelmente. Mas nada nos leva a ver que precisamente o oposto de tudo isto ocorre connosco, sendo nós seus iguais. Que se vê, que resultados, que consequências se vêem nas muitas reuniões de oração que se tutelam de "orar para salvar o mundo" ou "os pecadores"? Alguns gatos-pingados se acercam destas reuniões &endash; se é que as há &endash; com o resto da igreja a contestar tal reunião se for séria. É fácil depreender que a maioria das reuniões de oração são uma ofensa a Cristo, uma afronta sem igual &endash; só que ninguém nota e toma apontamentos sobre tudo isso. As reuniões ou não são estabelecidas, ou são ridicularizadas se convocadas, a menos que se convoque algum sumo-sacerdote conhecido para as embelezar! Se alguém importante e de renome atender ou administrar a dita reunião, todos atendem, mas que ridículo que nada de dentro do coração leve as mesmas pessoas a unirem-se em uníssono. Até dos jornais hoje em dia se faz uso para promover reuniões que em nada dão. As pessoas não comparecem a menos que haja um pretexto e uma razão de maior. É óbvio que nada pode ser mais desagradável a Deus que uma reunião onde o tema é um jantar, um homem conhecido. Que maior insulto pode haver contra um Deus Santo? Se mesmo quando se convida as pessoas e elas não comparecem, acha que o Senhor Jesus comparecerá nelas? Porque razão agirá Ele distintamente? Não existe união nem uníssono no próprio convite; como haverá naquela reunião? Nem sequer são unânimes em endereçar o convite a Ele, como virá? Talvez diga retorquindo que não era a sua intenção prevenir que Jesus em pessoa comparecesse naquela reunião, mas sabe, talvez a sua ausência dela queira dizer isso mesmo, a tal coisa da qual você agora tenta a todo o custo escapar ileso de culpa. Que vale escapar ileso da culpa quem a tem, se a carrega consigo para todo lado?

Necessita de alguém importante na reunião para participar dela em uníssono com outros corações? Que tal o criador do mundo? Se por acaso a reunião fosse convocada e o general Washington comparecesse nela? E se se desse o caso de ninguém vir àquela reunião mesmo assim? Mandam-lhe cartas de desculpas pela falta de comparências, porque estariam muito ocupados com questões essenciais à sua vida; uns que estavam doentes, outros que tinham familiares enfermos na cama; Que tinham muita consideração por ele mesmo assim e mais uns quantos blá, blá, blás! A que levariam as suas desculpas? Que resultados teriam essa reunião no espírito do general? Acho que seria um insulto, depois de o convidarem para a reunião, ninguém comparecer lá para ouvi-lo! Alguém se atreveria a fazer tal coisa com um mero homem importante? Que igreja obterá sucesso diante de Deus se apenas uma minoria está interessada em convidar Seu Espírito a descender sobre eles? Como podem fazer tal coisa com Deus, o ser mais conhecido, mais importante de todo o universo, de toda a eternidade?

Mas, será que tudo isto tem alguma coisa de verdade em si? Claro que sim! Qualquer reunião de oração é um convite directo e direccionado ao próprio Deus! Ele é que é o visado das reuniões de oração, para o chamarmos de Emanuel, Deus connosco! Será importante saber quem quer que Ele apareça de facto; quantos serão aqueles que assim desejam; porque assim desejam; e como pretendem que tudo isso se processe! A convocação duma reunião deste género será precisamente para nos elucidarmos sobre todos estes aspectos. Que os pastores não temam convocá-las, pois expondo a sua congregação podem vir a fazer algo delas. Se os resultados forem precários, as respostas também serão. Não foi assim com Pentecostes, pois durante, antes e depois desses dias, nada disso se passou. Ou acha que o Espírito Santo desceria sobre eles nas condições que acabo de enumerar?

Quanto mais grave será ainda o caso duma igreja moderna numa reunião de oração modernizada, onde muitos atendem mas nunca pelos mesmos motivos que aqueles que moviam as cento e vinte pessoas que fizeram abrir os Céus! Quantas vezes vemos que os céus nem se abrem e vivemos como se nada demais se estivesse a passar! Eles não manifestam o seu desagrado total por nunca serem visitados pelo principal Convidado da reunião. Imagine que uma reunião é convocada vezes sem conta porque uma ilustre pessoa é o principal convidado dessa reunião. Essa ilustre pessoa nunca comparece nela. As pessoas nem notam a sua ausência. Acharia isso normal? Não se esforçam nem sofrem para que tal pessoa compareça. Se essa pessoa é o principal motivo da reunião, não comparecendo, ou as pessoas deixam de ser normais, ou elas não estarão verdadeiramente interessadas em que ele compareça nelas! Nem é de admirar que tais reuniões produzam tão poucos resultados!

As orações são oferecidas com muito pouco de expectativa da parte de quem ora. Não acham anormal que nunca haja respostas coerentes com os seus pedidos? Ninguém com fé desse tamanho espere poder vir a agradar Deus com ela!

As pessoas pensam ter pouca disponibilidade para uma oração contínua, daquelas que só pára perante resultados concretos. Manter uma reunião de oração nesses termos por uma semana inteira é um absurdo para muitos, motivo de chacota para outros, motivo de sobra para se ensoberbecer quem dela participante é. Muitos nem sequer estarão mesmo interessados em que se obtenham resultados concretos e visíveis, que se ore até que uma bênção à altura de Deus seja prontamente derramada. Nunca se vê qualquer género de seriedade na oração, no motivo, na motivação. Fazem transparecer que nada de sério é ter ou querer ter Deus por perto, na dimensão da bênção da Sua presença real. Acham que estarão bem desde que se ore um pouco uma vez por semana em conjunto, quando a igreja primitiva fazia muito uma semana de cada vez! Não existe nenhuma seriedade naquilo que oram, no tempo que usam com a finalidade de obter tão só resultados concretos. Seja honesto: que poderemos esperar de tais reuniões mesmo? Talvez nada haja de unânime nessas reuniões a menos que as pessoas se tornem frívolas e engraçadinhas. É este o verdadeiro panorama de muitas e muitas igrejas que se acham vivas e luz dos gentios!

Mesmo quando reuniões de oração no geral tenham como frutificar e ser mantidas durante um longo período de tempo, começam a existir reuniões paralelas e pouco unânimes e amistosas entre elas. Muitas alienações e muitos mais motivos para se alienarem, sangue impulsivo e cabeça quente serão apenas os pequenos deveres e aperitivos de muita gente que lidera e participa de muitas reuniões de oração. Que diferentes são daquela assembleia do dia de Pentecostes. Lá estariam irmãos e irmãs em uníssono eterno e se a resposta tardasse um ano, um mês, eles lá estariam em seus postos. Que unidade de espírito, que pretensão santa a deles! Quando as lágrimas raramente se secam, quando as faces nem têm como permanecer secas durante muito tempo. Pedro ainda estava contrito e dorido, Tomé ainda a chorar porque não crera; mesmo assim, nada destas coisas os deteve em não obterem aquilo que Jesus lhes prometera. Mortificaram-se e não mais se ressentiam pela grandiosidade da vida da esperança que os munia e dirigia. Não será, pois, de admirar que hajam obtido tão grandes resultados nos seus muitos efeitos! Quão hipócritas são aqueles que são tidos como santos nas suas muitas igrejas! Quão hipócrita é a sua fé, que ofensa é a Sião de hoje a Deus!

Mais, em alguns locais, em algumas igrejas, até há reuniões de oração que são abandonadas, onde os corações dos presentes se ressentem uns contra os outros até; onde a confiança nem sequer está presente, quanto mais prevalecer! Mais grave ainda será que aqueles que ficam, nem suplicam por aqueles que os abandonam, pois acham-se muito bonzinhos para não verem tal coisa ocorrer diante de seus próprios olhos. Sião está deplorável, desfeita e ninguém clama, ninguém chama. Casos há quando muitos ainda se interrogam de como convocarão uma reunião de oração para que haja avivamento real, mas não existe nem amor entre eles senão apenas um sentir religioso e sem fundo. Muitas vezes até reuniões familiares de oração estrangulam-se em coisas do género. A alienação e incompetência assumem papéis determinantes e preconceituosos demais. Nada faz prever o derramamento duma real bênção da presença do próprio Deus. Nem um pouco de consideração têm uns pelos outros, quanto mais por Deus. Sob tais circunstâncias adversas, não se pode esperar nada mais do que uma desunião e alienação profunda do coração em relação àquilo que deveria ser mais que mero dever. Nem mais se edificam, nem mais se amam, pois a simpatia mútua deixa de existir e se tal coisa ocorre, como poderá haver uma uniformidade, que é seguramente algo muito aquém de união e unanimidade, na oração? Como poderá subsistir ou prevalecer uma qualquer edificação espiritual duma reunião desse porte? Se somos notificados de reuniões desse género, onde todos sejam rapidamente envolvidos numa edificação espontânea mas apenas através daquela oração duma pessoa que ora, mas nunca da outra que participa activamente da mesma reunião. Quando alguém ora, ouvem-se suspiros e lágrimas, mas quando outro se levanta para orar, tudo acaba. Que unanimidade será esta? Que corações unidos serão estes?

Nota-se que muitos perderam aquela confiança necessária num líder duma reunião de oração. Até num ambiente familiar se nota logo quando alguém perdeu a confiança em alguém. Se os corações nunca pulsam num mesmo sentir, numa mesma confiança e esperança, algo de muito errado se passa. Se as pessoas perderam aquela confiança em seu líder, como podem orar e esperar de Deus que confie e deposite nele o Seu Espírito? Como pode esse mesmo Espírito promover um tal espírito de oração que faça estremecer a terra uma vez mais, se a desunião é semeada e promovida, se o pecado impera, a dissensão dimensiona tudo o que ali se faz? Ninguém tem como orar em conjunto, pois nada têm em comum. Alienam-se uns dos outros e persistem naquela oração escondendo seus muitos pecados uns dos outros, defraudando-se mutuamente de honestidade. Irmãos e irmãs em Cristo: não vêem nada disto? Será que uma vez mais os cegos guiam outros tantos cegos?

Muitas vezes mais, quando as pessoas não subscrevem certas reuniões de oração, nunca dizem porquê, as verdadeiras razões porque as deixaram de subscrever e apoiar. São hipócritas na maneira como lidam uns com os outros, manifestam pouco amor na quantidade de honestidade nos verdadeiros motivos que os levam a não participarem nas reuniões de oração. Talvez até tenham razões sérias para não participarem, mas muitas vezes escondem essas razões uns dos outros como se nada de importante fosse.

Naquele dia de Pentecostes, todos negligenciaram e deixaram para trás os seus negócios, as suas pescarias e as suas muitas mágoas e remorsos. Mesmo sendo o mais pobre dos pobres, nada se importaram com isso, conquanto nunca deixassem de orar e vigiar. Por certo nenhum deles se encontrava ocioso naquele ofício de encontrar o tesouro da promessa do Pai. Seus corações eram preparados, vasculhados de cima para baixo, dum lado para o outro; nada os faria rejeitar ou abandonar tal reunião. Suponhamos que algum de entre eles se levantasse e dissesse "eu acho que não será necessário que todos fiquemos aqui a orar sendo que há coisas importantes a fazer". Acha que havendo tal desculpa, tal consideração por um Deus vivo se alcançaria a desejada promessa? Se não tivessem como cumprir as condições duma resposta, como poderiam esperar cumpri-las no adquirir da mesma? Se não fossem fiéis no mínimo, como o poderiam vir a ser no muito?

O facto que se realça, irmãos, é que nas nossas reuniões modernas e pouco primitivas nada disto se passa. Os crentes já não são gente séria, movida por seriedade em questões como eternidade de vida. Não podem agonizar mais, a menos que seja por suas próprias coisas. As suas almas não têm condições de se contristarem, de sentirem verdadeiras dores de parto, de ansiarem por águas vivas como um cervo o faz, pois não acham que necessitam dela a menos que seja por causas egoístas. Já não têm como obter esta profunda comunhão com Deus que é o equivalente a uma condição e a um ingrediente imprescindível para que qualquer oração tenha como prevalecer. Sabemos que um peso sente-se apenas quando uma alma se contrista por algo importante. E se o pecado do mundo não é a coisa que move os crentes a orarem, se as suas lágrimas caem por si e por suas faltas quotidianas e que mais, então será de esperar que achem justo abandonarem seus postos de vigília para se alimentarem do mundo exigindo até aquele aval de Deus nisso. Quando o orgulho do homem é abatido, existe uma lacuna na unanimidade na oração. É a lei terrena que impede e impera, pois é ela que sustém as orações de muito boa gente. 

Mas seria de desejar que as pessoas penetrassem fundo no coração uns dos outros, para que suspirassem uns pelos outros, uns com os outros por uma mesma causa justa. Será por essa razão que se ouve por aí dizer que temos muito a aprender com os metodistas. De facto, se não abusarem mas fizerem uso verdadeiro dessa prática comum entre eles, esse corresponder que se vê hoje na Igreja de Inglaterra, poderão sempre ajudar a suster responsivamente a oração uns dos outros. Um Congregacionalista disse uma vez que desejaria muito que as pessoas de outras denominações aprendessem com os metodistas aquilo que não sabem fazer. 

Eu nunca concordei com barulhos estranhos numa reunião de oração, mas uma sincera expressão de sentir nunca pode ser prejudicial a uma resposta de oração. Existe uma grande diferença entre quando as pessoas se emocionam por ninharias e quando o Espírito Santo se encontra presente. Já presenciei reuniões de oração onde uma congregação inteira se prostrou diante de Deus em uníssono com uma mesma oração geral. Os corações de todos presentes moviam-se como as árvores duma floresta sob tutela dum forte vento tempestuoso. Será em ocasiões dessa envergadura que nenhum líder necessita pronunciar algo a menos que guiado pelo Espírito Santo. Todas as palavras carregam uma sobrecarga de energia celestial, um enorme peso de poder e aprovação geral em todos conscientemente. 

Nada disto pode e tem como ser ficcionado ou alterado. Todos sabem, todos sentem que Deus está deveras ali presente. Todos sem excepção sentem o mesmo, pois uma Santa presença muito poderosa e realmente doce e poderosa invade todos os corações presentes. Ninguém tem medo mas todos temem, ninguém incita mas todos confiam grandemente e entregam-se a Ele e uns aos outros espontaneamente. A confiança prevalece em esperança e todos em conjunto despejam literalmente todo o conteúdo de todo seu coração diante de Deus de facto. Isto é tudo aquilo que é uma oração conjunta; nada mais. Uma união absoluta e incondicional diante de Deus, perante Seu trono de abundante graça e santidade. O Espírito Santo assistindo através de gemidos inexprimíveis em conjunto com quem ora e suplica para que todas as suas súplicas sejam deveras atendidas. Toda e qualquer reunião de oração deveria ser assim, deste feito, moldada apenas conforme o assunto a prevalecer distintamente, conforme a ocasião do pedido a efectuar.


CHARLES G. FINNEY

MINISTÉRIO

 MINISTÉRIO

Todos os cristãos querem ministrar. Queremos servir, ser úteis a Deus. E acredito que isto está certo, porque fomos salvos para servir. Mas, o que é o ministério verdadeiro'!
Como o ministério espiritual vem a existir?
Por que não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos, por amor de Jesus. Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. (2 Coríntios 4:5-7)
Todos somos vasos de barro, mas pensamos que somos vasos de alabastro. Somos vasos de barro - nada. Só Deus pode fazer isso, porque o homem jamais colocaria um tesouro num vaso de barro. Só Deus coloca um tesouro num vaso de barro.
E o tesouro, é claro, é o nosso Senhor Jesus, não há nenhum outro.
Graças a Deus que há esse tesouro no vaso de barro. Há um brilho, uma resplandecência, a glória da vida dentro de nós, porém somos vasos de barro opacos.
Nós prendemos, aprisionamos o brilho, a luz do conhecimento de Deus, em Jesus Cristo, dentro de nós. E para ministrarmos Cristo às pessoas, esse vaso de barro tem que ser quebrado.
Muitas vezes ministramos pelo poder do vaso de barro e alguns vasos de barro até que são bem ornamentados. Eles têm esperteza, uma personalidade dinâmica, vontade determinada, estão cheios de energia, cheios de idéias e tentam ministrar por essas coisas.
Com a nossa mente inteligente, nós analisamos a Bíblia, com a nossa eloqüência, tentamos persuadir pessoas, com a nossa personalidade dinâmica impressionamos pessoas, mas isso é ministério?
Ministério consiste em dar, comunicar, ministrar Cristo às pessoas.
Tal ministério só é possível através da cruz, porque é a cruz que quebra o vaso de barro.
Em 2 Coríntios, capítulo 4, Paulo menciona como ele, em tudo, foi atribulado, mas não angustiado. Ele, literalmente, estava cercado como se não houvesse nenhum caminho para prosseguir, mas há sempre uma saída. Ele disse que não vemos uma saída visível, porém o nosso caminho não está totalmente obstruído.
Uma tradução diz que "estamos no fim da nossa razão, mas não no fim de nossas vidas".
E como isso acontece muitas vezes. Ele disse que somos perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos. A versão de Philip diz: "abatidos, mas não eliminados" (2 Coríntios 4:9).
Esta é experiência daqueles que ministram a palavra de Deus. Se você não passou pelo quebrar do homem exterior, a vida, o brilho, a resplandecência de Cristo Jesus dentro de você, ficará aprisionada.
Só há uma maneira para que a vida do Espírito seja liberada, através do quebrar do vaso de barro - nossa vida da alma - e esse é o ministério.
O apóstolo Paulo diz, "trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste, também, nos nossos corpos" (2 Coríntios 4:10).
Sem a cruz não há ministério. Infelizmente, temos hoje em dia, tantos assim chamados "ministérios" sem a cruz.
Que o Senhor nos ajude a ver que a glória da cruz é o ministério.
Se você tivesse que ir à cruz para poder ministrar a seus irmãos, você estaria disposto a isso? Vale a pena.
O TRONO
A glória da cruz está no trono. Pense na maneira como nosso Senhor Jesus andou no caminho da cruz. Ele esvaziou-se a si mesmo, tomou a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz.
Pelo que Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome para que ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor.
A cruz é o caminho para o trono, e se isso é verdade para o nosso Senhor Jesus também é para nós. Em 2 Timóteo, capítulo 2, é dito que se sofremos com Ele, com Ele também reinaremos.
Não há outro caminho.
A CRUZ E O MUNDO
O mundo é um sistema, um cosmos. Satanás organizou o mundo em um sistema muito acirrado, e isto inclui todas as áreas e aspectos - político, econômico, cultural, social e até religioso.
Depois que somos salvos, o Senhor não apenas irá nos livrar das coisas do mundo, mas irá nos livrar do espírito do mundo; e o espírito mais forte do mundo está fundado no mundo religioso.
Paulo estava aprofundado no mundo religioso do judaísmo. Em Filipenses, capítulo 2, ele nos fala como ele estava arraigado profundamente no judaísmo:
Ele tinha sido circuncidado no oitavo dia; nasceu um israelita; era da tribo de Benjamim; era filho de um fariseu; de acordo com a lei era perfeito; sobressaia-se aos seus contemporâneos no zelo por Deus; e perseguia os cristãos pensando que eles eram impostores, rebeldes.
Ele estava arraigado naquele mundo religioso; porém, Deus o libertou daquele espírito. Ele disse: considero tudo com perda (Filipenses 3:8).
Essas coisas eram preciosas para ele, era tudo o que tinha alcançado até então, eram coisas pelas quais tinha orgulho; e agora considerava estas coisas como escória, refugo, como coisas a serem desprezadas por causa da excelência do conhecimento de Jesus Cristo.
Aquele homem foi libertado completamente do mundo religioso para a plenitude de Cristo.
Fomos libertos do mundo? Fomos libertos do espírito do mundo? Fomos libertos do mundo como um sistema? Entramos na plenitude de Cristo, sabendo que a excelência do conhecimento de Cristo é um ganho?
À medida que você vai caminhando com o Senhor, você continuamente vai sendo separado do mundo e isso é apenas uma confirmação daquilo que a cruz já fez por você.
É uma posição. Temos a cruz que fica entre nós e o mundo.
Na prática achamos que às vezes, quando o mundo olha para nós, ele ainda vê alguma esperança em nós; e que quando nós olhamos para o mundo, ainda temos algum desejo por ele. Não estamos mortos um para o outro.
Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. (Gálatas 6: 14).
Paulo disse que quando ele olhava para o mundo, ele via que Paulo disse que quando ele olhava para o mundo, ele via que o mundo estava morto. Estava crucificado. Não havia nada que ele, Paulo, admirasse. E ao mesmo tempo, quando o mundo olhava para ele, o mundo achava que ele estava morto.
Em outras palavras, o mundo tinha desistido de qualquer esperança nele.
Fico me perguntando se o mundo realmente desistiu de nós, ou se o mundo ainda nos tenta a voltar para ele, por achar que ainda há alguma coisa do seu espírito em nós.
Será que realmente olhamos para o mundo como se ele estivesse morto? Será que podemos nos gloriar desta maneira? O que precisamos é voltar para a cruz.
Se olharmos para a cruz, haverá uma revelação dada para nós. Você sabe, a cruz é uma grande revelação.
Ela não apenas revela o amor de Deus a pecaminosidade do pecado, mas ela também revela para nós quão horrendo e hostil é o mundo, pois esse é o mesmo que crucificou o nosso Senhor Jesus.
O mundo grita: "Fora com Ele, fora com Ele. Crucifiquem-No". O mundo o rejeitou. Isso é o que o mundo fez e está fazendo com o nosso Senhor Jesus.
Agora se conhecemos a cruz, se vemos a cruz, e se vemos que foi o mundo que crucificou Cristo, irmãos e irmãs, como nos posicionamos?
Podemos amar o mundo ainda assim? E o mundo continuará a nos amar se realmente ficarmos com Cristo na cruz?
Sthepen Kaung