segunda-feira, 11 de maio de 2020

O GRANDE LOUVOR


O Grande Louvor

Todos sabemos que o livro de Salmos é uma coletânea de Cânticos de Louvor. Mas há um grupo deles que são especialmente importantes: os salmos 113-118 e 136, os quais os judeus chamam de “O Grande Hallel”, ou, podemos dizer, O Louvor Maior.

Para estimular você no seu louvor a Deus, sugerimos que você leia esses salmos repetidas vezes (de preferência em voz alta) e vamos comentar alguns trechos deles para finalizar essas considerações sobre o Louvor.

Observe quem deve louvar a Deus:

1) O desvalido e necessitado:
“Quem há semelhante ao Senhor nosso Deus, cujo trono está nas alturas; o que Se inclina para ver o que se passa no céu e sobre a Terra? Ele ergue do pó o desvalido, e do montouro, o necessitado, para o assentar ao lado dos príncipes, sim, com os príncipes do Seu povo. Faz que a mulher estéril viva em família e seja alegre mãe de filhos. Aleluia!” - Salmo 113:5-9

2) Aquele que é salvo por Deus:
“Quando saiu Israel do Egito, e a casa de Jacó do meio de um povo de língua estranha, Judá se tornou o Seu santuário, e Israel o Seu domínio. O mar viu isso, e fugiu; o Jordão tornou atrás. Os montes saltaram como carneiros, as colinas como cordeiros do rebanho” - Salmo 114:1-4.

Nota: Por isso Deus diz a você: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?” (Hebreus 13:5,6). Você é “povo de propriedade exclusiva de Deus” (1 Pedro 2:9) e  “templo de Deus” (1 Cor. 3:16,17).

3) O angustiado, na tribulação:
“Amo o Senhor... porque inclinou para mim os Seus ouvidos, invocá-lo-ei enquanto eu viver. Laços de morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim: caí em tribulação e tristeza. Então invoquei o nome do Senhor: Ó Senhor, livra-me a alma... achava-me prostrado, e Ele me salvou. Volta, minha alma, ao teu sossego, pois o Senhor tem sido generoso para contigo. Pois livraste da morte a minha alma, das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés” - Salmo 116:1-8

4) O enfermo:
“O Senhor é a minha força... a destra do Senhor faz proezas. A destra do Senhor se eleva, a destra do Senhor faz proezas. Não morrerei, antes viverei e contarei as obras do Senhor” - Salmo 118:14-17.

5) Aquele que o inimigo ataca:
“O Senhor está comigo, não temerei; Que me poderá fazer o homem?... Melhor é buscar refúgio no Senhor do que confiar no homem. Melhor é buscar refúgio no Senhor do que confiar em príncipes... Cercaram-me, cercaram-me de todos os lados; mas em nome do Senhor os destruí... Empurraram-me violentamente para me fazer cair, porém o Senhor me amparou. O Senhor é a minha força e o meu cântico, porque Ele me salvou” - Salmo 118:6-14

Com isso esperamos ajudá-lo a entrar confiantemente na prática do louvor. A veste foi-lhe dada por Deus, a porta está aberta, Ele (Deus) deseja “reinar” em seu favor basta você criar, através do louvor e ações de graças, a condição para que o Deus tão grande se torne cada vez mais “presente” em sua vida.

Se você ler o Salmo 136, você verificará que todos nós temos muitos motivos para louvar ao Senhor e dar-Lhe graças por sua misericórdia para conosco.
O louvor no coração e na boca lhe será maravilhosamente útil se você se exercitar nele. Não deixe que satanás o prive (lhe roube) dessa bênção!



USOS E COSTUMES


Uso e costumes.

No Afeganistão, por motivos religiosos, o homem é obrigado a usar barba e a mulher é obrigada a cobrir totalmente o corpo. Para que elas enxerguem, é permitido o uso de uma tela reticulada e quadrada em torno dos olhos. A lei é válida para todos os afegãos em todo o país, desde a chegada dos talibãs ao governo. A polícia moral talisbã tem ordem de prender homens cujas barbas estejam muito curtas e mulheres cujos rostos não estejam cobertos. Os homens ficam na prisão até que a barba cresça novamente.
Em certa denominação protestante brasileira os varões não devem andar de shorts, bermudas nem sem camisas. E as mulheres precisam ter cabelos crescidos, não trançados nem encrespados artificialmente. Não são permitidos cortes para reduzir o volume do cabelo nem franjinhas.
Essas informações tornam o livro É proibido, de Ricardo Gondim, muito atual. Publicado pela Editora Mundo Cristão em dezembro do ano passado, o livro de 183 páginas tem como subtítulo O que a Bíblia permite e a igreja proíbe.
Apesar de polêmico e de ter de enfrentar muitas e sólidas barreiras, a obra de Ricardo Gondim, pastor da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo, não pretende ofender, contender ou zombar de qualquer postura denominacional. "Meu intento", explica o conhecido pregador e escritor, "é ajudar aquelas pessoas que carregam um enorme ponto de interrogação sobre qual procedimento bíblico deve ser adotado quando se vestem, se maquilam, cortam cabelo, usam calças compridas, se divertem e lêem" (p. 18). Gondim repudia o legalismo religioso sem abrir as portas da igreja ao conceito libertino da vida cristã.
É proibido vai embelezar muitas mulheres e tirar a gravata e o paletó de muitos homens, sem prejudicar a beleza interior, que pode até aumentar, se se der mais importância à verdadeira piedade cristã do que à mera aparência. É proibido vai diminuir o número de evasões das igrejas evangélicas mais legalistas e vai tornar a caminhada cristã mais alegre e menos opressora e artificial.
Mas é preciso ficar bem claro: o novo livro de Ricardo Gondim não pretende alargar a porta que Jesus chamou de estreita nem o caminho que Ele chamou de apertado (Mt 7.13-14).
Fonte: Ultimato

O pastor da Assembléia de Deus Betesda lança livro em que questiona a ditadura dos costumes

Não é somente por causa de sua pregação magnética e ungida que o pastor Ricardo Gondim é freqüentemente solicitado a dirigir cultos, vários deles diante de grandes platéias, e ministrar palestras em congressos e seminários. O líder da Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo, também é reconhecido em todo o país por um equilíbrio teológico que o distingue de parte significativa dos colegas de ministério. É pentecostal, mas tem horror ao legalismo. Possui formação teológica à altura dos maiores intelectuais das igrejas históricas, mas discerne nos movimentos carismáticos maior capacidade de adaptar-se aos contornos culturais. Defende uma igreja de princípios sólidos, mas não receia a comunicação com a sociedade.
Por estes e outros motivos, cada livro que escreve é garantia de sucesso. O mais novo, É proibido, não foge à regra.regra. Lançada pela editora Mundo Cristão em dezembro do ano passado, a obra já está na terceira edição. Nela, Gondim traz para discussão o arbítrio eclesiástico ou, numa linguagem mais simples, a ditadura pastoral em questões relativas à conduta do crente, como a proibição do uso de calças compridas pelas mulheres, de ir ao cinema ou à praia, de assistir à televisão ou mesmo de bater palmas durante o culto. Com a autoridade de quem dedicou-se durante muitos anos à observação e à pesquisa dos movimentos espirituais, sociais e políticos (no sentido mais amplo do termo) da Igreja Evangélica brasileira, o pastor Ricardo Gondim falou, em entrevista a VINDE, sobre o pentecostalismo crescente no país, os riscos do legalismo, a ascensão de lideranças quase ditatoriais e a necessidade de questionamentos para que ocorra o verdadeiro crescimento espiritual.

Como o senhor vê o movimento pentecostal no Brasil?

Eu diria que o pentecostalismo tem duas frentes: o pentecostalismo clássico e o chamado neopentecostalismo. Este último tende a ser mais identificado com o que se denomina movimento carismático. O movimento pentecostal clássico é aquele encabeçado pela Assembléia de Deus.

Por que o movimento neopentecostal tem crescido tanto nos últimos anos?

O movimento carismático tem uma agressividade muito grande na mídia. Portanto, tem maior facilidade de adaptar-se aos anseios culturais e falar muito mais próximo da cultura que aí está. Não há nenhum demérito nisto, é apenas uma característica. Existem, sim, perigos potenciais nesse diálogo. Há o perigo da conformação como o presente século. Além disso, corre-se o risco de a cultura acabar influenciando mais a igreja do que ela consegue influenciar a cultura.

Como o senhor analisa o relacionamento entre os crentes chamados históricos e os pentecostais no Brasil?

Este relacionamento está cada vez mais amigável. As fronteiras entre históricos e pentecostais estão sendo alargadas, e a tendência é que haja cada vez menos tensões entre os dois segmentos. Tenho visto que o trânsito entre pastores pentecostais e tradicionais tem sido facilitado. A cada dia, os rótulos denominacionais têm sido menos respeitados, e, neste sentido, esta é uma tendência muito positiva. Aliás, as diferenças entre as liturgias pentecostal e histórica têm sido quase imperceptíveis. Nós estamos muito mais próximos de uma liturgia brasileira, diferente da americana ou da européia.
O senhor diria que a expansão do pentecostalismo é um caminho sem retorno, que vai acabar atingindo as chamadas igrejas tradicionais, ou existe a possibilidade de, num determinado tempo, ele se desacelerar?
Eu acredito que a tendência pentecostalizante da Igreja Evangélica brasileira é irreversível. As igrejas tradicionais, conhecidas como denominações históricas, de alguma maneira já têm sido influenciadas por esse avanço fortíssimo do movimento pentecostal. Esta influência é muito mais sentida na liturgia, embora na própria parte teológica e doutrinária das igrejas tradicionais esteja havendo também uma forte influência. Não há hoje, eu diria, nenhuma igreja, por mais que se diga conservadora, histórica ou denominacional, que não tenha dentro do seu círculo pessoas com forte tendência pentecostal.

Qual seria o impacto disso no comportamento dos crentes?

A Igreja tem passado por uma verdadeira revolução litúrgica nos últimos 30 anos. E essa revolução é predominantemente de influência pentecostal, carismática. Eu acho que houve também, embora com menos força e velocidade, uma mudança teológica, haja visto a dificuldade que a Igreja brasileira teve, nestes últimos dez anos, de trabalhar questões como a teologia da prosperidade e a teologia da guerra espiritual, que foram trazidas no bojo do movimento neopentecostal e forçaram as igrejas denominacionais e as pentecostais clássicas a reelaborarem a sua teologia com respeito a anjos, a demônios, a dons espirituais. Hoje, a Igreja Evangélica do Terceiro Mundo, não só no Brasil, como na África e na Ásia, tem fortes tendências pentecostais, sem respeitar, por assim dizer, o rótulo denominacional da porta da igreja.




Até que ponto, nesta nova situação, o conservadorismo foi deixado de lado?

Embora muitos avanços tenham acontecido, a Igreja Evangélica ainda é um bastião de conservadorismo, de falta de diálogo cultural. O movimento pentecostal brasileiro, e o evangélico de um modo geral, tem muita dificuldade em enxergar a graça comum, a graça de Deus distribuída a todos os homens, e que os capacita a fazer coisas boas - embora seja participante da natureza caída. Nós temos a tendência de rotular pessoas, costumes e certas práticas, e de nos isolarmos do diálogo. Ainda hoje, o evangélico brasileiro típico é conhecido como aquele que pode ou que não pode fazer certas coisas.
O senhor acaba de lançar o livro É proibido, em que questiona o legalismo. A Igreja brasileira ainda sofre com uma espécie de ditadura de costumes?
Com certeza. Nós ainda temos uma ditadura dos costumes, que vai desde ornamentos, desde a indumentária, principalmente a feminina, até o diálogo cultural com as artes, com a música, por exemplo. Nós ainda temos a famosa frase: "Evangélico não ouve música do mundo", como se houvesse este tipo de departamentalização nas Escrituras entre aquilo que pode ou não ser consumido por nós só porque foi produzido por uma pessoa que não é evangélica. Eu já tive o desprazer de saber que algumas igrejas evangélicas ainda proíbem instrumentos musicais como a bateria, e outras que proíbem o ato de bater palmas.

Mas isso não acontece somente no interior?

Não, acontece mesmo em capitais. Aqui em São Paulo fui convidado para fazer uma cerimônia religiosa em determinada igreja, e foi-me dito que era proibido ter música que não utilizasse instrumentos típicos da Reforma e da liturgia reformada. Era proibido utilizar certos ritmos etc. Então a expressão "é proibido" ainda é muito utilizada, literalmente. É completamente anacrônico, mas coisas assim existem aqui em São Paulo.

O que está por trás disso? Uma concepção legalista?

Sim. Essa concepção advém da nossa incapacidade de ler a Bíblia como um livro cultural. A Bíblia não é um código de doutrinas, não é um catecismo que foi codificado para que nós a obedecêssemos como um regulamento religioso. A Bíblia é a história da interação de Deus com a cultura humana. No meu livro É proibido fiz um esforço para mostrar às pessoas que a Bíblia não é uma dogmatização teológica, mas uma saga humana onde existem coisas bonitas e feias. Enfim, assim é a vida como um todo.
O nosso comportamento como cristãos não deve ser o de fazer um catálogo do que pode e o que não pode, mas conviver com essa cultura e, no exercício da nossa maturidade, fazer aquilo que Paulo nos ensina: examinar tudo e reter o que é bom. O que eu quero mostrar no livro é que nós podemos olhar para a nossa cultura, para a convivência humana, e ver que existem lampejos, réstias da grandeza de Deus na produção humana. Como cristãos, devemos resgatar isso e ver ali sinais da graça comum de Deus para todos.

Por outro lado, o legalismo não tem o mérito de impedir que a Igreja se vulgarize?

Eu respondo com a Palavra de Deus. O apóstolo Paulo disse que o legalismo não tem valor nenhum contra a sensualidade. Este esforço de acrescentar à graça de Deus a lei é fortemente repelido nos escritos paulinos, principalmente nas epístolas aos Gálatas e aos Colossenses. O legalismo não produz santidade nem amadurecimento. O máximo que ele produz são pessoas que obedecem cegamente, mas que não estão convencidas da verdade. E, voltando à sua pergunta, o legalismo impede grandemente o avanço da Igreja. E por quê? Porque, embora crie comunidades de pessoas obedientes, separa grandes segmentos pensantes da sociedade. Resultado: o Evangelho acaba ganhando em obediência, mas perdendo em reflexão. A Bíblia não quer uma obediência cega, mas uma obediência lúcida. Por isso, Deus disse: "Vinde, e arrazoemos." É o que Paulo chamou de culto racional.

O senhor acha que o legalismo atrapalha a evangelização?

Sim, porque nós crescemos em segmentos menos reflexivos da sociedade e nos afastamos dos setores pensantes, dos formadores de opinião. Nós jamais conseguiremos mudar o Brasil se não ganharmos os formadores de opinião, que têm uma reflexão e uma análise crítica. A minha questão é que, no Brasil, nós estamos crescendo a passos largos, principalmente em grandes centros como o Rio de Janeiro e São Paulo, mas ainda nos mostramos incapazes de dialogar com aqueles que estão nos segmentos mais pensantes da sociedade. Você pode ganhar uma pessoa pela imposição dogmática do medo, mas perde aqueles que têm a capacidade de refletir criticamente. O Evangelho alcançou o mundo porque conseguiu vencer a resistência pensante dos romanos, e assim chegou à Europa, ao Ocidente.
Foi por isso que o apóstolo Paulo teve tanto interesse em ir a Antioquia, que era uma cidade universitária, à Grécia, que tinha sido o berço do saber na Antigüidade, e a Roma, a imperatriz do mundo, porque ele sabia que, ganhando os romanos, estaria ganhando o mundo.

Na sua opinião, por que têm surgido tantas lideranças absolutistas no meio evangélico?

Politicamente, a América Latina tem um histórico de caudilhismo, e esta infeliz vocação proporciona ao meio evangélico um solo fértil para que essa mentalidade se desenvolva na igreja. Um certo líder pentecostal gostava de dizer que, quanto mais ele surrava os seus membros, mais obedientes e fiéis eles ficavam. Eu creio que essa cultura brasileira ajuda a provocar isso. Eu diria também que nós, no mundo evangélico, crescemos durante muitos anos sem uma leitura interdisciplinar. Nós fomos ensinados a ler somente a Bíblia. No máximo, o que se permitia era a leitura de livros que falassem de assuntos diretamente ligados a ela. Esta falta de conhecimento do mundo, de horizontes mais largos, favorece a mentalidade de gueto, da obediência cega e irrestrita ao líder. As pessoas começam a acreditar naquela tese de que a verdade se restringe àquilo que lhes é ensinado pela igreja-mãe. Elas ficam com medo de se aventurar além dos horizontes que lhes são fornecidos. Tudo o que for além desses contornos é apresentado como falso e perigoso.

O que a Igreja precisa fazer para manter uma atitude ética e comprometida com valores bíblicos claros sem precisar deste determinismo legalista?

Eu diria que a Igreja precisa entender que, por trás da lei, existem princípios que a Bíblia chama de espírito da lei. É preciso entender que Jesus fez uma clara distinção entre a letra da lei e o espírito da lei. A letra mata, não produz vida. A letra da lei é circunstancial, é geograficamente local, mas os princípios são eternos, para todos. A Bíblia não deve ser vista como um livro de letras secas, áridas, mas um livro de princípios eternos. É nesses princípios que devemos buscar os fundamentos que vão alicerçar nossa vida espiritual. É um caminho mais longo, mas é muito mais frutífero. A lei diz: "Não matarás." O simples fato de eu não pegar uma arma e matar alguém já me satisfaz com a lei. Mas o princípio do que Jesus disse sobre não matar é muito mais amplo do que o que está escrito ali, e vai ajudar-me a não odiar ninguém, nem destruir com a língua ou com sentimentos amargos outra pessoa que esteja comigo.





Falando em termos práticos, o que o crente deve levar em consideração na hora de escolher o que lhe convém ou não fazer?

No livro, eu digo que o que vai determinar o que convém não é só a consciência do cristão, mas a cultura na qual ele está inserido. Para um índio do interior da Amazônia, a nudez pode ser coberta apenas por uma tanga. Neste caso, o que convém são os parâmetros culturais nos quais o indivíduo está inserido. Os mesmos princípios se aplicam a nós. O que convém e o que não convém não pode ser legislado de maneira alguma, e sim compreendido de acordo com os ditames culturais nos quais estamos inseridos. Muitas vezes temos a tendência de legislar sobre a nossa roupa apenas sob o aspecto da sensualidade. Há outros padrões que devem delinear nosso comportamento.
Muitas coisas consideradas extremamente pecaminosas dentro de determinada cultura podem deixar de sê-lo em outro contexto cultural. Na virada do século, por exemplo, a mulher mostrar o tornozelo era considerado extremamente sensual. Houve uma evolução cultural e hoje não é mais assim. O cristão deve entender a sua cultura, principalmente no caso dos missionários, que não devem tentar impingir os seus valores culturais.

Igrejas que agem de maneira discricionária, proibindo os membros de fazer determinadas coisas, ou de usar certas roupas, têm futuro?

A tendência é que tais igrejas mais e mais isolem-se em pequenos guetos. Perdem a pertinência cultural e, portanto, têm cada vez menos espaço para falar à sua geração.

Por que algumas igrejas neopentecostais são tão radicais quanto aos usos e costumes e outras, que seguem a mesma linha carismática, são extremamente liberais nessa questão?

Eu diria que as igrejas neopentecostais em geral surgiram através de novos líderes, e não têm muita continuidade. Essas lideranças não têm muito lastro, nem compromisso institucional. São pessoas que começam a partir de suas próprias visões, sonhos, têm muito ímpeto evangelístico e uma grande determinação de alcançar sua cidade, seu país. Como essas pessoas não têm muitos elos institucionais, são mais livres para traçar os próprios contornos.

Muitas dessas igrejas adotam teologias e eclesiologias de fundamento bíblico questionável, como a teologia da prosperidade. Qual o perigo disto?

As igrejas neopentecostais têm sido fortemente influenciadas por uma teologia americana, a teologia de confissão positiva, que reflete a preocupação com a ascensão social, onde acredita-se que as pessoas, ao abraçarem o Evangelho, necessariamente ascenderão socialmente. Mas não através do trabalho, da frugalidade, da poupança, como diz a sociologia de [Max] Weber, e sim da mágica, da oração forte, da bênção sobre a carteira. Esta teologia da ascensão social rápida chegou no Brasil há uns 25 anos, e foi fortemente aceita devido à nossa estrutura sócio-econômica de privilégios. Aqui, ou a pessoa já nasce rica ou a sorte a aquinhoa de maneira especial. Num país com índices alarmantes de pobreza e desemprego, é difícil ascender através do trabalho, do próprio esforço. Então, foi adequada uma nova linguagem à igreja: basta uma oração para ser próspero, pode-se reivindicar de Deus a bênção sobre a sua vida. Esta teologia que visa o bem-estar do ser humano, e não a glória de Deus, não tem nada a ver com o Evangelho. O Evangelho não tem esta relação direta de bênção de Deus com prosperidade. Isto é totalmente pernicioso.





Então o movimento neopentecostal seria o responsável pela disseminação da teologia da prosperidade por aqui?

O movimento neopentecostal não é propriamente o vilão dessa história. Ele é muito mais vítima, já que ele foi influenciado por essa teologia. O neopentecostalismo estava justamente querendo alcançar um segmento, a classe média, que tem grande ambição de ascensão social. Nos EUA, por ser um país que possibilita a mobilidade social, essa teologia tem uma plausibilidade muito grande. É por isso que minha tese sempre foi a de que a teologia da prosperidade teria as pernas muito curtas na América Latina porque logo esses grandes evangelistas seriam confrontados com a dura realidade de que aqui as coisas não são bem assim.

Voltando à questão das lideranças absolutistas, o senhor acredita numa cartelização das igrejas?

Acho que não usaria este termo, mas penso que uma das grandes ameaças para a Igreja Evangélica é o mercado. É o perigo de enxergarmos a nossa missão sob o ponto de vista mercadológico, através de lentes empresariais. Este é o grande perigo da Igreja nesta virada de século. Se usarmos a lei da oferta e da procura, vamos comprometer seriamente a nossa mensagem, adequá-la ao meio e cair no engodo da mídia, em que o meio se torna mais importante do que a mensagem. O que está acontecendo nas igrejas é que nós estamos segmentando o mercado. Um pastor passa a ver no outro um concorrente, e não um cooperador na obra de Deus. Começa a haver uma grande transferência de membros de uma igreja para outra, já que as pessoas não têm mais fidelidade à marca, à instituição. Aliás, esta é uma característica da própria modernidade. Aí, os pastores ficam em busca de técnicas que mantenham o seu auditório, o seu nicho de mercado.

A Igreja precisa de polêmicas e questionamentos para evoluir?

É lógico. A Igreja sempre conviveu com a tensão, desde o grupo interno dos apóstolos. Depois, foi a igreja primitiva, com as questões judaizantes. Mais tarde, tivemos a teologia agostiniana, a Reforma, o calvinismo, o arminianismo... Querer esvaziar a Igreja de suas tensões internas é um desserviço que prestamos contra nós mesmos. Precisamos de contestações internas, precisamos nos reformar sempre. É aí que crescemos de verdade. Em última análise, nenhum de nós é o dono da verdade, ninguém tem a última palavra. É através das tensões que vamos crescer no conhecimento da Palavra de Deus.


ALIANÇA COM DEUS


Aliança com Deus


1.   O que é uma Aliança?


Biblicamente aliança é um contrato, um pacto, acordo ou sociedade entre duas pessoas ou duas partes em que se estabelecem compromissos de deveres, obrigações e privilégios, objectivando um bem comum das partes. No Antigo Testamento verifica-se dois tipos de aliança: aliança de respeito mútuo e aliança de amor. A aliança de respeito mútuo era feita no sentido exclusivo de não haver guerras entre as partes aliadas, como a de Isaque e Abimeleque ( Génesis 26:28-29).
A aliança de amor envolve sacrifício, a oferta da vida por inteiro. Esse é o principio da aliança de Deus com o ser humano retratado na Bíblia, mais tarde veio a ser simbolizado pelo casamento. O Antigo Testamento trata da mesma aliança com aqueles que se rendem ao Filho de Deus de todo coração, alma e entendimento (Mateus 10:37-39 ; 22:37).

2.   Como era a cerimónia de aliança no Antigo Testamento?


A cerimónia de aliança era marcada pelo sacrifício e o sangue derramado era o selo da aliança. As partes envolvidas na aliança tomavam um ou mais animais e os sacrificavam. Em seguida os partiam ao meio; cada metade representava um dos envolvidos na aliança. E então as partes passavam entre as metades significando que se uma delas falhasse naquele pacto a outra parte teria o direito de fazer com ela o mesmo feito ao animal, ou seja: sacrificá-lo!
Deus fez esse tipo de aliança com Abraão (Génesis 15: 9-10,17,18).

3.   Porque o sacrifício de animais era obrigatório na aliança?


A palavra empenhada das partes envolvidas numa aliança não era suficiente para firmar um pacto, pois é próprio do ser humano faltar com sua palavra, especialmente se as circunstâncias lhe são desfavoráveis. O sacrifício do animal lembrada o empenho do juramento que não poderia ser quebrado. Pois assim como a vida do animal não poderia ser retornada, também a palavra não poderia ser quebrada.

4.   Quais eram os compromissos assumidos numa aliança?


Basicamente os compromissos assumidos numa aliança envolvia amor, confiança e fidelidade, os quais também são a base do casamento. No casamento há compromissos de parte a parte, e cada uma tem suas próprias responsabilidades que, unidas pelos laços do verdadeiro amor, conduzem a unidade indivisível de pensamentos e atitudes. 

Os compromissos de cada um sempre tem um objectivo comum com o outro. E ainda que os sacrifícios de cada um sejam demasiadamente grande a força da aliança os leva a pensar nos objectivos comuns que são ainda muito mais importantes.

Dai a razão porque o casamento tipifica a aliança com Deus, pois envolve a entrega total de vidas. O sangue derramado no acto conjugal da noite de núpcias é a marca viva que sela tal aliança.



A MISSÃO DA IGREJA.


A MISSÃO DA IGREJA.


A preocupação agora volta-se à fundamentação bíblico-teológica para a missão da Igreja a partir de Atos 1:8. Encara-se essa relevância teológica como paradigma missiológico da Igreja primitiva, avaliando seus métodos, suas estratégias e seus progressos. Há ainda a compreensão escatológica da expressão confins da terra.
Nossa pesquisa é também histórica. Tendo como indicador o ambiente eclesiástico no mundo desde o período dos Apóstolos, a idade moderna com os reformadores, a contemporânea com os teólogos envolvidos na missão integral e, dando nuances de crítica pastoral, apresentando desafios e conquistas de uma proclamação libertária à igreja latino-americana.
Em seguida, há a análise da prática missio-eclesiástica puramente latino-americana, ressaltando o CLADE III e a sua consecutiva relação com as teologias de missão clássica e neo-liberal. Esse tópico será esclarecedor, pois fornecerá informação básica de como vem sendo trabalhada a missão no continente latino-americano.
No penúltimo item, entende-se os conflitos e desafios na proclamação do Evangelho. Crises, conflitos, problemas, e estruturas de poder opressoras às missões serão denunciadas. Espera-se que o trabalho venha satisfazer a necessidade pastoral de atualizar o conteúdo de nossa missão continental.
Por fim, a temática desenvolvida é a da espiritualidade kerigmática, ou seja, a proposta é que se apresente a evangelização como uma prática contínua do ministério cristão. Afinal, ide por tudo mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura.(Mc 16:15)

I – EXIGÊNCIA BÍBLICA DO KERIGMA EM ATOS 1:8

1. O Testemunho cristão como paradigma do poder na Evangelização.

Em Atos 1:8, texto que se refere à grande comissão, podemos observar Jesus falando a respeito de um poder que viria sobre os discípulos. "Avlla. lh,myesqe du,namin" (mas vós recebereis o poder). A palavra grega usada para poder, é dynamis. Segundo Colin Brown esta palavra sugere que este poder vem sob forma de capacitação para realizar algo, seja físico ou espiritual, indicando que alguém recebeu poder para agir.
Ao utilizar o vocábulo dymanis para referir-se ao poder, Jesus está então dizendo que este poder deveria ser utilizado na realização de alguma coisa; o que neste texto significa que, com a vinda do Espírito Santo, viria sobre os discípulos também um poder capacitador que seria a ferramenta necessária a ser usada no testemunhar do reino de Deus entre os povos da terra.
Este poder não era ainda propriedade dos discípulos, pois o poder para a proclamação do evangelho, até então, estava na palavra de Jesus e em seus atos milagrosos; todo seu testemunho estava fundamentado nas maravilhas operadas por Jesus entre os judeus. A força que impelia os seguidores de Jesus a testemunhar vinha da Sua presença no meio deles, onde poderiam sentir e tocar na fonte de todo o poder: Jesus, Cristo o Filho de Deus.
Com a ascensão de Jesus, esta fonte de poder é passada então para o Espírito Santo, que assume o papel de consolador e capacitador para o testemunho do reino de Deus, até a volta de Jesus. A partir daí, então, o Espírito Santo após ter descido, continuaria a implantação do reino de Deus, que Jesus veio anunciar.
Segundo Alan Richardson, esta relação entre o poder (dynamis) e o Espírito Santo resolve a questão da vinda do Reino mencionada por Jesus em Marcos 9:1. Jesus estaria em atos 1:8, falando a respeito desta vinda do reino de Deus. Sendo assim, a passagem de atos 2 seria o cumprimento não somente de atos 1:8, mas também de Mateus 9:1. Concluímos então, que, com sua ascensão, Jesus inaugura um novo tempo, com a atuação plena do Espírito Santo como capacitador para o testemunho do reino de Deus através das pessoas predita pelos profetas no Antigo Testamento como em Joel 2:28.
Os cristãos agora poderiam testemunhar, não pela palavra de Jesus, mas sim pelo poder do Espírito Santo, que gerava capacitação aos que temiam a Deus a proclamar a vinda do reino de Deus, não mais em palavras, mas em poder. Esse testemunho que os cristãos deveriam dar após receberem o Espírito Santo, toma a forma de pregação do evangelho, anúncio das boas novas, tendo como base desta pregação diante de toda a humanidade as experiências vividas com Jesus Cristo durante seu ministério aqui na terra. A exigência do Kerigma é o testemunho.

2. O poder vivenciado na prática do testemunho

Conforme mencionado anteriormente, o cumprimento da promessa de Jesus a respeito do recebimento do poder do Espírito Santo, está narrado em Atos 2, onde por ocasião da festa do pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos.
Ao observarmos a narrativa bíblica, temos a impressão de que durante o período entre a ascensão de Jesus e a data do Pentecostes, os discípulos não haviam se manifestado a respeito do reino de Deus. Talvez tivessem compreendido o que Jesus havia dito a respeito de esperar o poder, ou talvez estivessem amedrontados, e intimidados com o que poderia acontecer com suas vidas. A comunidade cristã transpareceu desespero. O que se pode afirmar é que a vinda do Espírito Santo trouxe aos discípulos o que eles precisavam para exercer seu papel de testemunhas do reino de Deus no mundo, inaugurando um novo tempo na expansão do Reino de Deus entre os povos.
A Festa do Pentecostes tinha dois motivos especiais: um era agrícola e o outro histórico. Agrícola por que era a comemoração do fim da colheita dos cereais, que se iniciava no período da Páscoa e histórico porque perto do período intertestamentário, os judeus ligaram esta data à entrega das tábuas da lei no monte Sinai, o que ocorreu cinqüenta dias após o êxodo. Devido a importância desta data, judeus de todos os lugares, chamados de judeus da diáspora, estavam em Jerusalém para as comemorações. Pode-se observar então que não foi por acaso que o Espírito Santo veio aos discípulos naquele dia, pois se no verso oito do primeiro capítulo do livro de atos, vemos Jesus falando a respeito de um poder que traria aos discípulos capacidade para testemunhar sobre o reino de Deus até os confins da terra, no capítulo dois, do mesmo livro, esta conotação ficou ainda mais clara.
Em sua narrativa Lucas é claro ao falar da quantidade de pessoas que estavam na cidade naquela época que eram vindas de regiões distantes: "E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu." Atos 2:5. Podemos afirmar então, que o ambiente escolhido pelo Espírito Santo para manifestar nos discípulos seu poder capacitador foi bastante propício aos planos de Jesus pois, segundo a narrativa bíblica de Lucas, neste dia quase três mil pessoas aceitaram o evangelho de Jesus, e com isso o reino de Deus começou a ser testemunhado em diversas partes do mundo.
A primeira evidência da capacitação recebida através do poder do Espírito é com certeza a apologia que Pedro faz a partir do versículo quinze do segundo capítulo de Atos. O discípulo que há apenas cinqüenta dias havia negado conhecer a Jesus por medo do que pudesse acometê-lo, agora faz uma das mais belas defesas ao evangelho, falando com toda autoridade diante de judeus não só de Jerusalém, mais vindos de todos os cantos da terra.
Outro aspecto da capacitação do Espírito Santo para testemunhar é o fato de que cada um dos que estavam em Jerusalém naquele dia ouviu as pregações em sua própria língua. Isto não seria nada extraordinário se não viesse da boca de galileus que, além de serem conhecidos como incultos, tinham dificuldades de pronunciar palavras com sons guturais, sendo assim eram mal vistos pelo povo de Jerusalém, por serem provincianos. Este evento impulsionou os discípulos a proclamarem o evangelho destemidamente com autoridade, levando muitos judeus a aceitarem o sacrifício vicário de Jesus.
Esta ação capacitadora do Espírito Santo é novamente ressaltada no capítulo três do livro de Atos, quando os apóstolos João e Pedro realizam um milagre à frente do templo, ocasião esta onde Pedro novamente faz uma apologia ao evangelho, arrebanhando mais judeus para o cristianismo. Podemos dizer; então, que a igreja cristã realmente foi inaugurada, somente após a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, onde os primeiros discípulos receberam deste Espírito a capacitação para proclamar o reino de Deus.
Ruth A. Tucker citando Eusébio de Cesaréia, historiador da Igreja primitiva traz um breve resumo dos acontecimentos subseqüentes ao pentecostes, mostrando com clareza a obra do Espírito Capacitador no meio dos Judeus.
"Nessa época muitos cristãos sentiram suas almas inspiradas pela palavra santa, assim como um desejo veemente de alcançar a perfeição. Seu primeiro ato, em obediência às instituições do Salvador, foi vender seus bens e distribuir o resultado deles entre os pobres. A seguir abandonando seus lares, passaram a cumprir a obra de evangelista tendo como alvo pregar a palavra de fé aos que ainda não tivessem ouvido e confiar-lhes o livro dos evangelhos divinos. Eles se contentavam em simplesmente lançar os fundamentos da fé entre esses povos estrangeiros; a seguir, nomearam pastores e lhes deram a responsabilidade de edificar aos que eles haviam simplesmente induzido a crer. Passavam então a outros países e nações com a graça e ajuda de Deus".
Podemos concluir então, que a descida do Espírito Santo, não veio apenas como uma experiência de edificação espiritual daqueles que se achavam salvos, mas sim como um revestimento para que a igreja testemunhasse com poder a respeito do reino de Deus. Por isso, a primeira ação do Espírito Santo foi impelir os que estavam reunidos a pregar o evangelho, mesmo estando com a cidade cheia de judeus e vindo de aproximadamente quatorze regiões diferentes, mostrando que o alvo da igreja, após receber o poder, era com certeza os "Confins da Terra".
Estes argumentos deixam claro que desde o início da igreja o objetivo de Deus era revestir a Igreja com um poder capacitador para que ela conduzindo seu ministério à uma visão do Reino sendo propagado entre os povos através do testemunho como resultado de um avivamento, expandisse suas fronteiras até os confins da terra. Ou seja, Deus queria que sua Igreja fosse uma Igreja comprometida com a visão Missionária e para isso providenciou todos os meios necessários a fim de alcançar este objetivo.

3. A dimensão geográfico-escatológica dos confins da Terra

A narrativa bíblica de atos 1:8, mostra claramente um conceito geográfico do trabalho missionário transcultural: "... e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra." Qual a relevância desse conceito na exigência bíblica do Kerigma Cristão? O Que "confins da terra" pode elucidar para a missão evangelizadora contextual?
"Confins da terra" mostra a dimensão escatológica que o testemunho dos discípulos teria de alcançar. Jesus estava aqui querendo transmitir a idéia de que dos discípulos deveriam falar Dele em todos os lugares da terra durante todo o tempo até a parousia. Isto se deu devido ao questionamento dos discípulos em relação à restauração do reino político de Israel. Após três anos caminhando junto de Jesus, ouvindo-o falar das dimensões espirituais do reino de Deus, agora eles perguntam sobre a restauração de um reino temporal.
Com o verso oito porém, Jesus deixa bastante claro que Sua igreja havia de ser formada para testemunhar, deixando a vista de todos que o testemunho seria a ferramenta de implantação do reino Espiritual de Deus na terra. Diante disto surge à nossa mente a dúvida em relação ao entendimento dos discípulos acerca da vontade de Jesus para sua Igreja. Será que aqueles homens com seus pensamentos etnocêntricos a respeito do reino de Deus realmente compreenderam a dimensão dos "confins da terra" ? Os acontecimentos subseqüentes ao Pentecostes nos levam a crer que sim. Segundo a tradição apostólica, Mateus foi para a Etiópia, André chegou a região do leste europeu, Bartolomeu e Tomé, passaram pela Arábia e Índia, respectivamente. Podemos afirmar que o sucesso da expansão do cristianismo se deu devido ao fato de que ele começou diferente das outras religiões conhecidas na época do domínio romano. O que começou como uma seita judaica em apenas 30 anos havia se tornado uma religião conhecida em quase todo o mundo na época.
As estradas Romanas da época aliada com a paz dominante neste período entre judeus e romanos, denominada de Pax Romana, facilitaram grandemente o anúncio do evangelho, fazendo com que por onde os discípulos andassem, fossem testemunhando as boas novas do evangelho expandindo assim a Igreja de Jesus Cristo por toda parte, através do testemunho. Outro fator que auxiliou os cristãos na proclamação do evangelho foi o fato de que o grego era o idioma universal do império, facilitando a comunicação com o povo onde quer que fossem.
Devemos porém refletir um pouco mais sobre o aspecto escatológico dos "confins da terra". Se os cristãos tivessem entendido o vocábulo "escatos" apenas com um sentido geográfico, o cristianismo seria hoje uma religião antiga estudada pelos historiadores interessados nos acontecimentos do primeiro século. A relevância dos "confins da terra" é que a fé no Cristo ressuscitado não pode, com efeito, ser rebaixada a pontos limites da geografia, mas elevando-os igualmente à compreensão cosmológica que este Cristo ressuscitado tem. Não há coordenadas geográficas que determinariam a parousia pela latitude e longitude da proclamação, mas as coordenadas cosmológicas que transcendem o Kerigma anunciador da restauração do reino em Cristo.

II – INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA NA HISTÓRIA DA IGREJA

1. Relevância no apostolado.

1.1. Paulo, testemunha de um kerigma em conflitos.

Sem dúvida nenhuma, a maior testemunha do evangelho nos anos posteriores à ascensão de Jesus foi o apóstolo Paulo. A tradição cristã diz que quando ainda criança, Paulo aprendeu as tradições de seu povo mediante os ensinamentos que eram ministrados na sinagoga, onde se familiarizou com a Septuaginta e aprendeu aspectos principais de sua herança nacional. Sua língua materna provavelmente foi o Grego e, certamente viveu no mesmo ambiente que os helenistas que causaram tumulto em Jerusalém no dia de Pentecostes.
Embora o próprio Paulo tenha dito ter estudado aos pés do Rabi Gamaliel e ser um de seus melhores alunos, em sua primeira aparição na narrativa bíblica ele não é nada mais além de um empregado, que tomou conta das vestes dos judeus enfurecidos, enquanto Estêvão era apedrejado. Porém, este jovem começa a tomar mais participação nos acontecimentos quando percebe que ao expulsar os judeus helenistas de Jerusalém, estavam, na verdade, ajudando a proliferar e se espalhar esta nova "Seita" (cf. Atos 6-10).
Em meio a este contexto, o jovem Saulo inicia uma viagem a Damasco a fim de prender alguns cristãos e trazê-los de volta; viagem esta que iria transformá-lo no maior defensor daqueles dos quais era perseguidor.
Segundo a narrativa do próprio apóstolo, um encontro com Jesus, no meio do caminho entre Jerusalém e Damasco, transformou de forma surpreendente o jovem perseguidor Saulo no Apóstolo Paulo, testemunha de Jesus Cristo, principalmente no meio dos gentios. O Fariseu que odiara a fé cristã se torna agora seu maior advogado. Após sua chegada em Damasco, ao invés de prender cristãos, Paulo foi ajudado por eles. Agora, aqueles que ele tencionava prender e perseguir até a morte estavam se tornando seus amigos mais íntimos.
Na Carta que Paulo escreve às igrejas da Galácia, ele toma como idéia principal de sua apologia, a convicção de que homens e mulheres da mais diversificada formação religiosa e social somente poderiam estar juntos e unidos, se o ideal desta união fosse Jesus Cristo. Certamente, esta convicção foi que o fez levar a mensagem cristã não só às cidades da Palestina, mas também aos mais longínquos recantos do mundo conhecido (cfe as três viagens missionárias de Paulo à Ásia e uma quarta viagem à Europa. Além dessas oportunidades evangelísticas, a comunicação do apóstolo com as comunidades somente foi através de cartas).
Porém, nem tudo transcorreu serenamente o quanto parece. O livro de Atos dos Apóstolos tratou de esconder os conflitos surgidos na missão de Paulo devido à sua finalidade que era tornar Paulo aceitável aos seus adversários, no entanto, as epístolas nos mostram a seriedade de tais conflitos que Paulo certamente teve de enfrentar. Estes conflitos, começara a surgir devido à opção missionária de Paulo pelos gentios.
Segundo José Comblin, o primeiro grande conflito enfrentado pelo apóstolo Paulo foi criado pelos chamados falsos apóstolos. Estes eram alguns judeus convertidos as cristianismo que se opuseram às convicções de Paulo e o perseguiram por onde quer que o apóstolo passasse.
Na segunda carta aos Coríntios Paulo fala a respeito desses apóstolos nos capítulos 11 a 13. Certamente estes falsos apóstolos judaizantes ao percorrer as igrejas da Galácia conseguiram abalar a fé proclamada por Paulo, provavelmente com elementos da lei judaica, a qual o apóstolo Paulo não estava muito interessado em seus aspectos rituais e cerimoniais. Para Paulo, a Lei era muito mais uma fonte de moralidade.
Entre estes elementos da lei judaica que abalaram a fé paulina estava a necessidade da circuncisão. Com isso, mudaram o evangelho pregado pelo apóstolo Paulo aos Gálatas, pregando o que o próprio Paulo chama de "outro evangelho" um evangelho que fazia concessões aos judeus (cfe II Coríntios 11:4). Em Corinto, estes judeus helenistas geraram algumas polêmicas a respeito de Paulo, que ameaçaram romper as relações entre o apóstolo Paulo e a comunidade cristã daquela cidade.
O desprezo de Paulo pela lei judaica o havia colocado em uma posição inferior aos olhos de seus perseguidores helenistas, que ameaçaram interferir também na igreja existente na cidade de Filipos. Escrevendo à igreja desta cidade, Paulo faz uma apologia a seu ministério, no capítulo 3, iniciando seu discurso chamando estes judaizantes perseguidores: "de cães, maus obreiros e inimigos da cruz de Cristo". Neste discurso, o apóstolo Paulo coloca sua posição confrontando a superioridade de Jesus Cristo em relação às tradições judaicas. Embora seus perseguidores fossem teimosos, Paulo perseverava também na mesma teimosia, resistindo assim aos ataques desses apóstolos judaizantes (cfe o zelo apostólico de Colossenses 4:13).
Um outro grande conflito enfrentado por Paulo foi o fato de que ele não se deixou levar pela cultura grega. Esta cultura era apenas para uma minoria de homens livres que constituam a elite. Proprietários de escravos que não trabalhavam faziam desta cultura uma cultura elitista. Paulo resolve não valorizar esta cultura, fundando suas comunidades a partir da massa, que era a maioria, que consequentemente não participavam da cultura grega dominada pela classe superior.
Ademais, certamente, o que assombrou o ministério do apóstolo Paulo foi sua própria formação judaica. O fato de preferir o conflito com as elites ao invés de seu apoio, mostra que Paulo não esperava que seu sucesso viesse das coisas carnais. Com uma doutrina aberta e receptiva aos gentios, Paulo mostra que mais que tudo, confiava no Espírito Santo, que iria agir nestas comunidades fazendo-os andar nos caminhos de Deus. O conflito consiste justamente nesta diferença cultural entre os cristãos judeus apegados à lei em relação aos gentios novos convertidos.
Com aparecimento destas comunidades, certamente surgiam novas experiências que com certeza poderiam ter provocado em Paulo sérios problemas culturais. Como ocorre hoje com nossos missionários, o apóstolo Paulo poderia ter passado por um choque cultural, devido à grande diferença de costumes entre os judeus e gentios. Paulo, porém, certamente não cedeu a estes questionamentos, confiando ao Espírito Santo sua vitória em relação a estes e aos muitos outros conflitos vencidos por ele. Esta confiança fez do apóstolo Paulo o maior testemunhador da história da Igreja primitiva.

1.2 Compreensão teológica de Pedro

A compreensão teológica de Pedro sobre o conceito confins da Terra é essencialmente escatológica. Sua preocupação está relacionada à pregação do reino de Deus às nações. Ao anunciar a realidade do reino, o apóstolo está inserindo os valores básicos do ministério pastoral: o sentido apocalíptico e escatológico. O primeiro se refere à consumação do reino de Deus (Mt 2:7; 12:39; 13:44-45; 24:36; Lc 12:32, 58-59; 17:21-24; Mc 1:14-15) e a esperança que os homens tinham de ter. O segundo apresenta o lugar da escatologia no ensino de Jesus. A promessa apocalíptica frustrou-se, mas a essência permaneceu: Deus é Senhor e o reino finalmente prevalecerá. O aspecto escatológico recupera a vontade de Deus para a humanidade.
Pedro caracteriza um ministério pastoral voltado à esperança messiânica. A expectativa missiológica dos confins da é orientada, não para a pessoa messiânica, mas para a era messiânica. A figura do messias seria apenas o executor da salvação e não o seu motivo, significado ou conteúdo. Na Palestina do primeiro século, havia diversas concepções messiânicas. A concepção mais popular era a de um messias-rei. Além dessa concepção dominante havia outras; algumas dessas a suplementavam, outras a contradiziam. Entre essas outras havia a expectativa de um messias como sumo-sacerdote e como profeta.
No judaísmo, porém, essas concepções não possuíam um ensino unitário conviviam paralelamente, sem uma força que as unisse. Essas concepções messiânicas passam a ter uma unidade apenas no cristianismo, no evento da cruz. No cristianismo, o Messias é o centro e não apenas o executor. Jesus é essa força capaz de unir essas diferentes concepções.
Em I Pedro, no entanto, o tema da vitória sobre o sofrimento é a chave hermenêutica para o bom entendimento da messianidade inculturada no judaismo. O louvor a Deus por uma viva esperança é visível no primeiro capítulo. O interessante é que o tema da santidade também é enquadrado dentro do argumento da escatologia cristã (cfe versos 13-25). A comparação de Jesus sendo a pedra angular é uma pre-figuração da eleição divina que busca na esperança cristã a realização dessa mesma eleição. E a prática do bem consiste no sofrimento pelos outros, todavia, a vida segundo a vontade de Deus é a nova mensagem da parousia de Cristo.
Sendo assim, o ministério pastoral se torna relevante, pois:
-          O sofrimento é pertinente no contexto latino-americano;
-          O tema da esperança cristã urge ser atualizado e contextualizado
-          O Dever da teologia da esperança contextualizada, salientando a compreensão teológica dos confins da terra;
Qual a relevância do conceito messiânico para hoje?
Dessa forma, contextualizar a esperança cristã é promover o sentido da parousia na evangelização, na ação social, nas missões e, enfim, nos ministérios que emancipam a missão integral da igreja,

2. Relevância na Idade Contemporânea

2.1 A compreensão da missão integral

Muito se tem falado em missão Integral da igreja, porém este tem se tornado um assunto desgastado, devido à falta de compreensão real do termo "missão integral". Para compreendermos a integralidade da missão da Igreja, deve-se entender alguns princípios sobre a missão, para enfim compreender como e quando a Igreja estará realizando a missão integralmente.
O primeiro ponto a ser discutido quando se fala de missão integral é a origem da missão. Analisando a narrativa bíblica, podemos facilmente afirmar que Deus é o agente principal dos eventos históricos. Deus participa ativamente da História revelando nela sua vontade e utilizando-se da narrativa histórica para se fazer conhecido pelo homem. Sendo assim, missão é uma categoria pertencente a Deus. Antes de ser uma tarefa da Igreja que demonstra sua conotação humana Missão faz parte da vontade de Deus, nascendo do mais íntimo do seu coração.
Este fator descarta qualquer possibilidade de auto-suficiência por parte da Igreja para a realização de uma missão integral. Como conseqüência, não se faz missão, sem uma ligação séria e direta com o idealizador da missão, Deus. Antes de buscar realizar a sua missão, a igreja deve sob uma atitude de humildade e oração, buscar em Deus a capacitação para a realização da obra missionária. Se a missão tem como ponto de partida a vontade de Deus o próximo passo é analisarmos a igreja como instrumento da missão.
No Antigo Testamento, Deus escolheu Israel com a finalidade de que fossem testemunhas no meio das nações. Ao contrário do que se pensa, o fato de Deus eleger Israel como Seu povo particular, não é sinal de favoritismo exclusivista de Deus, pois o objeto desta eleição era alcançar as nações. Todas as vezes que se desviou do propósito de Deus de fazê-lo conhecido entre os povos Israel era julgado sob forma de cativeiro, sendo subjugados pelas mesmas nações às quais deveriam ter sido testemunhas de Deus. O fato da missão ter Deus como ponto de partida não da margem à passividade da Igreja em relação a missão, pelo contrário, ela é dinamizada.
A Igreja jamais poderá utilizar-se da soberania de Deus para justificar sua passividade em relação à missão integral, pois o Deus soberano escolheu seu povo com a finalidade de testemunhar. Sendo assim, a ação missionária de forma prática pertence única e exclusivamente à Igreja. Povo escolhido por Deus para testemunhar.
O grande modelo de ministério integral sem dúvida nenhuma encontra-se na pessoa de Jesus. Através da narrativa dos evangelhos, vemos que Jesus entendia profundamente o sentido de missão integral. Podemos avaliar isto, primeiramente pelo fato de que antes de qualquer preocupação no campo da ação, Jesus se preocupava primeiramente com a espiritualidade.
Uma das grandes discussões da missiologia moderna gira em torno do papel da ação social na vida da Igreja. Seu papel é primário ou secundário? Desde que foi realizado o congresso de Lausanne em Manila nas Filipinas, os evangélicos tem se aprofundado mais na compreensão do papel da Igreja na solução dos problemas da sociedade. Para compreender-mos a espiritualidade da missão integral, devemos buscar primeiramente sua compreensão na vida e obra de Jesus Cristo. Ele não dicotomizava a espiritualidade como nós fazemos hoje, antes via sua espiritualidade como o conjunto de tudo aquilo que fazia com a finalidade de glorificar a Deus.
Podemos facilmente ilustrar o modelo de espiritualidade de Jesus, através de sua própria leitura dos dez mandamentos: Amar a Deus e ao próximo. Ao resumir a lei desta maneira, Jesus está dando duas dimensões à sua espiritualidade. A vertical e a horizontal. Vertical porque ele amava a Deus e horizontal porque deste amor ao Pai, Jesus extraía toda sua força para amar ao seu próximo. Sendo assim, sua espiritualidade era profundamente baseada em seu relacionamento com Deus. Qualquer tentativa de realizar a missão da igreja, sem passar pela espiritualidade é totalmente fora dos padrões estabelecidos por aquele que é o idealizador da missão: Deus.
Partindo então de Jesus como modelo, podemos analisar o propósito restaurador da missão. Aquilo que Deus criou, Ele pretende restaurar. Esta restauração é salvação, com um duplo sentido: de poupar e também de julgar. Na narrativa bíblica do Antigo Testamento, vemos vários exemplos desta dualidade na ação restauradora de Deus. No relato do dilúvio por exemplo vemos claramente a ação julgadora de Deus, porém não sem estar acompanhada também da ação salvadora, que no caso ocorre sob a forma da Arca. De igual modo, vemos nas críticas dos profetas o julgamento de Deus, mais suas promessas sempre davam a conotação da salvação vindoura.
Vemos então que a restauração é o propósito final da missão de Deus, que jamais pode ser dissociada da fé, antes, deve ser entendida como resultado tanto em adoração a Deus quanto em relação de justiça para com o próximo e para com toda a criação. Partindo do ponto de que Deus se propõe a restaurar aquilo que Ele criou, podemos definir como alvo da missão integral da igreja a própria criação. Esta fato pode ser entendido na revelação escrita sob o aspecto de que ela se inicia com a narrativa da criação dos céus e da terra e termina com a restauração dos mesmos em um novo céu e uma nova terra. A criação como alvo da missão pode ser ilustrada através do dilúvio, onde através do julgamento não só parte da raça humana foi preservada, mais de igual modo, parte representativa da criação também foi poupada. Esta perspectiva nos livra de qualquer miopia missionária, demonstrando que a missão jamais será completa até que todos os povos, línguas, tribos e nações recebam o evangelho restaurador do Reino de Deus.
Partindo, então, da criação como o alvo da missão, se faz necessário traçar estratégias evangelísticas que busquem alcançar os lugares mais distantes, onde quer que Cristo ainda não tenha sido anunciado. Podemos afirmar categoricamente que o veículo usado por Deus para manifestar sua vontade salvífica é a História. Deus usa a história para agir na vida dos seres humanos e nunca meios contemplativos fora deste mundo. Todas as Suas ações de julgamento e libertação, sempre se deram de maneira concreta na vida da humanidade, através do dilúvio, das pragas no Egito, dos profetas, tudo isto findando com a libertação de modo supremo e objetivo através da morte e ressurreição de Jesus.
O catecismo maior começa com a seguinte pergunta: Qual é o fim principal do ser humano ? A resposta correta é: 0 fim supremo e principal do homem è glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. A única razão para a existência do desafio missionário, é o fato de que o culto pleno a Deus ainda não existe. Sendo assim, o culto é a finalidade principal da Igreja. Quando todas as tribos, raças, povos e nações se dobrarem diante do Cordeiro de Deus, a obra missionária não mais existirá, porém o louvor e a adoração a Deus permanecerá.
Podemos, então, concluir dizendo que a obra missionária começa e termina com o culto prestado a Deus, pois somente no culto genuíno e profundo podemos encontrar a motivação adequada para a Igreja assumir sua vocação missionária.

2.2 desafios e conquistas: paradigmas de um kerigma libertador

O conceito de confins da terra é o fundamento da evangelização contextual da Missão Integral da Igreja. Ele elabora estratégias e ordens de serviços a serem desenvolvidas pelo programa de missões da comunidade local. Uma evangelização que corresponde satisfatoriamente aos propósitos divinos é aquela que extrapola a ação físico-geográfico das missões e inaugura em cada anúncio evangelístico o sentido cosmológico do kerigma libertador.
Atualmente, percebe-se os conflitos e os desafios surgidos em cada tentativa de acrescentar aos métodos uma uniformidade na compreensão libertadora-salvífica do kerigma. Tais formulações surgem em tempos de crise, na tentativa de esboçar e metodologizar as teorias concernentes à ação libertadora de Cristo. Resta-nos, então, considerar as conquistas que já anunciaram um kerigma libertador: o anúncio da própria missão de Cristo.
A missão da Igreja deve incluir, em seu bojo de eventos evangelísticos, a consciência de que cada cristão é um missionário em potencial que anuncia a libertação pelos quatro cantos da Terra e que essa libertação é trans-cósmica que a tudo penetra, move e faz convergir. Essa concepção cosmológica dos confins da Terra é o novo desafio libertador do kerigma a ser anunciado pela Igreja Evangelizadora para o Terceiro Milênio. Que poder (dunamis) comunica o kerigma libertador de Jesus numa sociedade pós-moderna? Se não reconhecermos esse novo conceito cosmológico do anúncio de Jesus, com certeza nossa pregação será informatizada e tecnologizada a ponto de congressos e campanhas evangelísticas serem os únicos métodos disponíveis. Além disso, as missões atuais estão não mais se secularizando, mas se globalizando. Será que as fronteiras geográficas não foram também já alcançadas por ela? Enfim, o desafio está lançado: o kerigma libertador de Jesus a partir da condição confins da terra é o que possui caráter cosmológico.
É por isso que a esperança cristã de Atos 1:6-11 é relevante aos nossos dias! A Ekklesia precisa viver a esperança cristã a partir dos seguintes desafios pastorais:
a.       explicitar visivelmente a fé na restauração do conceito do reino de Deus dignificando a vida humana com normas e diretrizes autenticamente cristãs;
b.      exercitar a espiritualidade através do caminho de um kerigma libertador que pratique a libertação da escravidão, inclusive a da natureza;
c.       enfatizar a parousia de Cristo como a promotora da esperança cristã;
d.      propor uma liturgia criativa que esclareça a pessoa do Espírito como poder de Deus para testemunhar acerca da própria esperança cristã;
e.       redefinir o conceito de confins da terra, superando o sentido geográfico de Atos 1:8;
f.       reciclar a teologia pastoral de modo a concretizá-la substancialmente na práxis cristã, inclusive na educação teológica.
Os desafios estão lançados, basta cumprí-los!

III – PERSPECTIVAS DE UMA ECLESIOLOGIA CONTEXTUALIZADA

1 Atos 1:8: Temas relevantes da Evangelização

Entende-se a Evangelização intimamente ligada à Missão da Igreja. Aquela não é superior à essa, mas complementar. Falar de um evangelismo eficaz hoje significa também compreender os temas relacionados de uma eclesiologia contextualizada.
Nosso primeiro termo se refere à MISSÃO. É a tarefa da Igreja em cumprir a vontade de Deus na terra aos homens. Envolve elementos mais específicos (evangelização, Ação Social, Missões). É o cumprimento de uma ordem divina no trabalho de resgatar o homem no seu todo (salvação holística). A missão se realiza através de pessoas. Elas são comissionadas para um trabalho específico. Ao realizarmos o trabalho evangelísticos, atravessarmos as barreiras culturais e desenvolvermos uma ajuda ao ser humano, estaremos cumprindo a missão. Não basta somente cumprir um deles deve-se desenvolvê-los harmoniosamente para sempre estarmos certos de que a Igreja tem cumprido sua missão. Dentro da missão há uma diversidade de serviços a realizar. Deus equipa (qualifica) pessoas de acordo com sua vontade para realização destes. Esses serviços são os diferentes ministérios.
Dessa forma, pode-se falar em Teologia da missão que visa elaborar as bases teóricas da missão cristã num contexto mais abrangente de uma prática missionária. Há necessidade de fazer, criar, elaborar essa disciplina para verificação de possíveis erros quanto aso cumprimento do mesmo. A teologia é uma elaboração do conhecimento do mesmo. A teologia é uma elaboração do conhecimento humano com bases nas Escrituras a partir de uma situação concreta - elaboração essa a ser aplicada num contexto dessa mesma realidade. Para se fazer teologia é necessário: teólogo, Bíblia e realidade. A teologia da missão engloba esses três elementos e os faz úteis ao cumprimento da missão
Enquanto Missão significa em um sentido mais amplo a tarefa da Igreja, os termos EVANGELIZAÇÃO e MISSÃO visam a conscientização e a ação prática da Eclesiologia contextualizada referente ao desempenho do seu papel na proclamação e testemunho da expansão do reino de Deus. Em Mateus 28:19-20 entendemos o teor de Missão. De forma genérica, é, pois, a evangelização a tarefa da Igreja.
Podemos ilustrar missão como sendo um "leque" - cada parte que se abre é uma nova tarefa a ser cumprida. A Igreja precisa "encarnar" sua missão. Somente depois dessa conscientização é que poderá ocorrer um despertamento na ação missionária da Igreja. Não basta somente dizer que "Cristo é Salvador, É necessário comprovar isso". Boff Ilustra essa frase dando o exemplo de um indivíduo que passava fome. É difícil cumprir a missão se pensarmos apenas no sentido de proclamação. Missão é mais que isso. É também envolver-se na provisão das necessidades alheias. Como pregar um Cristo libertador se o povo vive oprimido. É preciso repensar e fazer a releitura à luz do evangelho quanto a missão da Igreja hoje, digo melhor contextualizar.
Já MISSÕES compreendem a evangelização através das barreiras culturais, físicas, geográficas, éticas, etc... Faz parte da missão da Igreja . Não é ultrapassar fronteiras que resulta o cumprir da missão. A esse trabalho damos o nome de Missões. Pois missões está implícito em missão.
E os MINISTÉRIOS são as diferentes especificações que há na Igreja para a realização da Missão. São as chamadas diversidades de trabalho. Há várias pessoas que têm ministérios diferentes. A missão é tudo ( Evangelização, missões, etc...) Essas subdivisões da missão são denominadas ministérios. Quero dizer ministério de evangelista, de ensino, exortação, etc... Na Igreja, encontramos os vários ministérios diferentes. Missão é no sentido e significado geral, ministérios e mais particular, específico restrito. Missão é para todos, ministérios é para um ministro.
Por último, refere-se à AÇÃO SOCIAL, que é o atendimento às necessidades básicas do ser humano. É considerar a realidade social e tratá-la como tal. É realizar a missão!

2 Missão enquanto Evangelização (ato proclamador da salvação)

Encarando a Evangelização enquanto comunicação das boas novas, diremos que a idéia de proclamar as boas novas aos que ainda não ouviram realiza a missão. Boas para quem recebe, novas para quem ouve. Podemos ilustrar com a idéia do arauto. Ele nos dá a notícia de primeira mão. Seria atualmente o porta voz. Há necessidade, também de dizer que não somente o evangelizar que restringe a missão da Igreja. É mais do que isso.
O esquema abaixo, visualiza as relações
Dessa maneira, a Igreja precisa inculturar-se eficazmente para que algo de importante aconteça na sociedade Somente através da realidade é que podemos atuar, agir, cumprir a missão com mais exatidão e de forma precisa e sistemática. A igreja não pode achar-se que não está no mundo. De fato ela está e para cumprir sua missão ela tem que partir da realidade.
Leonardo Boff nos dá um exemplo de Igreja que se identifica com o mundo. A Teologia da Missão diz que para haver " teologia " é necessário: "teólogo", "bíblia" e "realidade". A Igreja tem que partir de suposições com tiros certeiros. Se a missão cristã não é somente evangelismo, como pode, então, cumprir sua missão diante de problemas diversos tais como: falta de alimentação. O Brasil está com sérios problemas, a América Latina está com sérios problemas, o mundo está afundado em problemas. Como resolvê-los se não pensarmos de forma intrisicamente real? As hipóteses são provisórias. Somente com um interesse profundo desejado pela Igreja que é a missão será completada. Como pensarmos em salvação holística que é uma realidade, se não a colocarmos aos outros sem preocuparmos com sua realidade? Realidade essa sócio-econômica, político-ideológico, etc... Concluindo, é errado sim a Igreja ter a idéia de enclausurar-se e não atualizar-se.. A igreja não é do mundo, mas está no mundo e o mundo é o seu campo de Missão (Mc 16:15).

3 O CLADE III: A América latina como seguimento de Atos 1:8

CLADE III foi o evento mais marcante sobre a discussão da Evangelização na América Latina. De 24 de agosto a 04 de setembro de 1992 se realizou em Quito a formulação de estratégias e consultas à Evangelização Latino-americana.
O tema proposto é de que Todo o evangelho para todos os povos desde a América Latina. Em outras palavras, o Evangelho precisava se pregado para reconciliação do homem integral. Era a teologia do Evangelho da Reconciliação, já iniciada por Deus no processo de encarnação e exaltação de Cristo, prefigurando a reconciliação do mundo Nele para com Deus. O resultado da reconciliação do ser humano em relação com Deus é o agente motivador para a oração, para o serviço e para a proclamação. O Evangelho, então, anunciado na América Latina é o de poder.
Os latino americanos, alcançados pelo testemunho cristão, são feitos justiça de Deus. É um ato divino demonstrado pela ação humana a tal ponto de evidenciar a evangelização pretendida em Atos 1:8. A América Latina evidencia o seguimento de Atos, pois compreende o sentido escatológico geográfico dos confins da terra e emana, de sua paixão pela vida, alcançar as almas perdidas e oprimidas. A América Latina é o novo campo missionário a ser alcançado pelo poder do Espírito, pois ela, a terra ameríndia, é a nova criação do Senhor, que no anúncio do Evangelho compreende a vida de Cristo que é vida no Espírito da comunhão.
Algumas conclusões acerca do congresso dá-nos compreensão profunda e satisfatória da proposição todo o evangelho para todos os povos desde a América Latina. Para isso, é preciso que a América Latina passe por um processo de constantes revoluções (mudanças) nos paradigmas de estruturação social, político, econômica e até mesmo religiosa, pois se não houver também a evangelização das estruturas, nunca o povo conseguirá manter a santidade e a vida transformada pela ação do Espírito. Quando faz referência ao contexto latino é preciso o uso variado de vocabulário para satisfazer os propósitos dessas supostas evangelizações. Digo supostas por causa dos intelectuais de mente europeizada onde afirmam que os acontecimentos da Am Latina são sucessões ininterruptas de evangelizações que nuca se acabam. Os fatores diversos resumem sua exploração: subdesenvolvimento econômico, fracasso político, problemática social, crescente nacionalismo, Insatisfação generalizada, messianismo revolucionário e reação contra-revolucionários.
Quanto a temática da evangelização da Igreja evangélica, no contexto latino-americano, há que considerar as raízes históricas desde a colonização, projetos imperiais, a homogeneização cultural e também as missões protestantes. As tentações constantes em assumir uma apatia nos conscientiza da nossa própria situação. Quando a Igreja se aparta do mundo para o que foi chamada como sal e luz, quando pretende viver para si, já não vale mais para nada, senão para ser fechada fora e não freqüentada por homens. Quanto ao imperativo da renovação é obrigação da Igreja ser consciente da hora em tudo o que isto implica. O primeiro tipo de renovação deverá ser a teológica. Toda reflexão teológica sã deve estar motivada, gerada e desenvolvida por um propósito missiológico. Deverá ser cristocêntrica. O CLADE III foi tudo isso.

IV – EVANGELIZAÇÃO E MINISTÉRIO PASTORAL

Em análise e discussão aos problemas e desafios do ministério Pastoral é nos evidenciado o tema acima que abrange de forma ampla e detalhada os diferentes aspectos que se relaciona à evangelização. É possível pois enunciá-los e assemelhá-los a nossa realidade. Porém, a priori, vamos considerar cada um desses temas teológicos fundamentais da evangelização.

1 A centralidade da Evangelização no Ministério Pastoral: Jesus Cristo

Para realizarmos parte integrante da missão é necessário definir os objetos de trabalho que ocupam nesse realizar. Evangelização é a proclamação de Cristo como salvador. Há sim outras formas mais extensas e ricas em teor literário de enunciado, restrinjo-me ao que abrange de forma clara e objetiva a evangelização. Entendendo a evangelização como proclamação, divulgação, anúncio, etc... consideremos os seguintes aspectos: Qual é o centro da evangelização?
Como temática é claro e evidente que a centralidade de toda a evangelização pela pessoa de Jesus Cristo (entenda-se pessoa como termo referencial) porém, não se limita apenas a pessoa de Jesus. Sabemos que alguns trechos dizem que Jesus morrei pelos nossos pecados, mas não sabemos que esse "morrer pelos pecados" houve sacrifício, sofrimento, obediência, enfim, houve trabalho. É a obra salvífica de Cristo.
Para evangelizar é necessário a ênfase tanto na pessoa de Cristo como na obra salvífica. Não podemos desconsiderar uma delas. Tornar-se-ia infrutífera e não provocaria a transformação que o indivíduo necessita. Esses dois aspectos constituem unidade na sua proclamação visto que sem eles o poder kerigmático é desconsiderável e não estaria cumprindo assim o proclamar de Cristo como Salvador do mundo.
Essa centralidade possui uma base. A proclamação sobre Jesus possui uma base. Assim como a missão constitui-se unicamente em uma base: a unidade do Deus trinitário - Deus o Pai (resgatado), O Filho (reconciliando) e o Espírito (buscando), a evangelização tem uma base: a transformação. A Igreja é o instrumento para a evangelização; é a prova da transformação. A Igreja como comunidade evangelizadora tem que possuir "AÇÃO TRANSFORMADORA". Somente após a transformação dizemos que ocorreu a evangelização.
Mesmo através dessa transformação nós temos que considerar os aspectos pertinentes à ação transformadora. A Igreja é responsável em todos os procedimentos evangelísticos que tendem a ocorrer sob sua jurisdição. O estudar do Cristo como centro da evangelização é colocá-lo de forma clara toda a sua trajetória enquanto Deus na História. Quero dizer que a encarnação e Cruz, a Ressurreição e a Ascensão são argumentos insubstituíveis em um anúncio. Entender Cristo como o centro e saber defini-lo no seu todo: como ser divino e terreno. Cabe portanto, a Igreja preparar-se em todo o seu departamento evangelístico capacitando-se integralmente naquele que é o centro da Evangelização.
Tem se observado muito as altas promoções e divulgações do reino através de cruzadas evangelísticas, contingentes , sermões empolgativos, mas esquecem de consultar a bíblia como fonte para o entendimento e aperfeiçoamento de evangelistas. João 1:1-11 fala do Deus que se encarnou, nos evangelhos fala-se do seu sofrimento, morte e ascensão. São passagens que nos permitem colocar Jesus Cristo como o autor da obra da salvação. A evangelização tem que se responsabilizar sobre a pessoa e obra de Cristo.

2 A Prática eclesiástica e a Evangelização

Já disse que a Igreja tem uma responsabilidade: A de anunciar as boas novas. Essa tarefa destinada à igreja é descrita em várias passagens neo-testamentárias (Mt. 16:18; 28:19-20, Mc 16:15, Jo 20:21-23, Atos 1:8). Em cada ato da Igreja há uma ação evangelizadora, pois ela possui características que são vertentes evangelizadoras. As diferentes tarefas missionárias são executadas pela igreja. No que se refere à evangelização é preciso tornar relevantes alguns aspectos:
1.      Liturgia no culto (litourguei) a igreja proclama publicamente o que Deus tem feito pelo mundo, proclama a fidelidade de Deus para o seu povo. O culto constitui um canal evangelizador, devido ao seu momento mais forte de comunhão e comunicação. Os crentes tem que se fazer presentes nessa comunidade.
2.      Diaconia - (entendida nas suas três aplicações; ofício, dom e serviço). A comunidade está aqui para servir a humanidade. É atender as carências materiais. Em atos 6 percebemos a instituição dos mesmos.
3.      Educação Cristã - (didaquê). É a instrução que é dada na Igreja., Os diferentes processos de ensino são aplicados de forma tão organizada e consciente que este ato se torna em evangelização. As possibilidades são imensas de aplicação. As EBF's, as programações, os estudos bíblicos, as recreações, são canais que os líderes podem usar para tal. O denominador ou melhor o ponto comum entre a evangelização e essas aplicações tem que possuir projetos de educação cristã e teológica e que constituam como evangelização.
4.      Justiça Paz e Amor - (Dikaioma) para implantar o reino de justiça, se faz necessário o aproximar-se da Igreja a realidade é o primeiro passo. Depois de apurada as injustiças tem que servir como delatora das opressões, das injustiças. Se a igreja dissesse que o mundo está preso ao pecado social já estaria fazendo um bem maior.
5.      Assembléia dos Santos - (eklesia) se reune para publicar a fé no Deus vivo e Verdadeiro, que compartilha e se ajuda mutuamente.

3 O Ministério da Evangelização e a atuação do Espírito Santo

A comunidade evangelizadora proclama a Palavra Viva (logos) àqueles que crêem e se fazem participantes dessa nova fé. Todo o conteúdo e substância da fé é alicerçada na Palavra de Deus. A palavra de Deus é a revelação de toda a verdade pura e simples aos homens. Muitos confundem a Bíblia como a Palavra de Deus. Definimos as diferenças na seguinte frase: A palavra de Deus é a Bíblia, mas a Bíblia não é a palavra de Deus.
Como palavra viva, Cristo é anunciado na comunidade e portanto conhecido por todos. A palavra tem seu efeito na vida do indivíduo tanto intelectualmente como espiritualmente.
Quanto á ação do Espírito é nos facilitado dizer que a dependência total dessa proclamação é executada mediante aquele que nos dirigia a toda a verdade (João 14:26).

4 Evangelização e Política Diaconal: a opção preferencial pelos pobres

Que ação possui a comunidade evangelizadora no que diz respeito às injustiças sociais? Que eclesiologia corresponde à realidade da pobreza no mundo?
São interrogações que têm tomado singular espaço nos meios eclesiológicos que procuram buscar uma postura que defina suas opções. A temática descrita em destaque leva-nos a considerar conceitos bíblico-teológico. Em Lucas 6:20 Há o seguinte dizer de Jesus; "... Bem-aventurado vós, os pobres (ptoikoj), porque vosso é o reino de Deus". Fazendo uma análise sócio-histórica percebemos que naquele tempo havia muitos pobres (financeiramente) considerados "necessitados", "injustiçados" e "oprimidos". Cristo se coloca ao lado dos pobres. Estes sofrem todo e qualquer tipo de sistema injustiça promovidos pelos poderosos econômicos e politicamente. Se Cristo colocou-se ao lado dos oprimidos, como seguidores dele, nós, a Igreja devemos nos colocar da mesma forma ao lado dos pobres. Cristo procurou sempre atender as necessidades daqueles que não tem e também daqueles que têm. Os pobres são aqueles que não possuem condições básicas para a vida. Jesus faz opção pelos pobres, sempre visitou as cidades mais pobres de Israel, conversar com os não considerados puros (mulher samaritana), morrer como marginal, etc...
Atualmente a Igreja Católica em seus documentos oficiais tem se declarado como instrumento de denúncia aos governos que oprimem os pobres. O Vaticano II e Medelim constatam em seus organismos como meios de incentivo à manifestação de uma nova teologia. A chamada Teologia da Libertação. Procura como instrumento educacional, instruir a todos com o parecer dessa opção. Alguns não concordam e não aceitam, sendo assim, consideramos apenas "opção preferencial pelos pobres". A Igreja Evangelizadora tem que tomar posição e definir-se, Oxalá definisse como Jesus.

5 A oportunidade dos ministérios para a Evangelização: os carismas

Devido ao fato de haver grande diversidade de dons ministérios as oportunidades de se utilizar os mesmos são também enormes. Na Igreja isso pode ser bastante evidenciado quando encontrarmos várias pessoas executando diferentes ministérios. Alguns ensinam outros profetizam, contribuem, exortam; outros ainda têm o discernimento, a sabedoria, o ministério de socorro. Há portanto uma variedade de serviços que estão sendo executados paulatinamente. Porém para a execução de tais serviços é necessário uma ordenação ou melhor uma capacitação dada pela igreja para a realização dos serviços. Ressalto que os ministérios ordenados assim chamados são o episcopo (bispo) o diácono e o ministro. Para os demais ficam apenas a realização dos serviços mediante o dom recebido de Deus. Atualmente as igrejas tem dado mais ênfase nos dons de cura, línguas e expulsão de demônios - o que não permite a manifestação dos outros. quero dizer que o espaço de outros dons mais oportunos fica restrito.
Os dons mais oportunos são os mais elevados. A igreja precisa de dons oportunos. A profecia é um dom oportuno. Anunciar os desígnios de Deus em tempos de crise denota um dom (ministério) oportuno (elevado) realizado por um ministro (profeta) O ensino é outro de suma importância. Os dons são para a edificação do corpo da Igreja; eles tem que complementar o corpo. Tem que ser oportunos.

V – ESPIRITUALIDADE KERIGMÁTICA EM DE ATOS 1:8

A respeito da espiritualidade na missão da Igreja, o Pacto de Lausanne comenta:
... O pai enviou o seu Espírito para dar testemunho do seu Filho. Sem o testemunho dele o nosso seria em vão. ..., o Espírito Santo é um Espírito missionário, de maneira que a evangelização deve surgir espontaneamente numa igreja cheia do Espírito. .... A evangelização mundial só se tornará realidade quando o Espírito renovar a igreja na verdade, na sabedoria, na fé, na santidade, no amor e no poder.
Segundo os idealidadores do pacto de Lausanne, a igreja somente conseguirá alcançar as nações adequadamente, quando se deixar capacitar pelo Espírito Santo. Esta capacitação, só será recebida mediante uma profunda dependência do Espírito, tal qual Jesus era dependente Dele. Jesus demonstra ter consciência desta dependência, ao fazer uma releitura de um trecho de Isaías.
"O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor" Lc. 18-19
Não poderíamos jamais utilizar-nos de outro modelo de espiritualidade para a missão, senão o de Jesus. A espiritualidade da missão deve estar enraizada da vida e na obra de Jesus, pois Ele tinha plena consciência a respeito de sua missão, e de como realizá-la. Em Atos 1-611, Lucas registra a comissão pela qual a nova comunidade deve compreender a continuidade da missão de Jesus. O próprio Lucas nos dá um exemplo prático da espiritualidade de Jesus relatado em seu evangelho:
A) A prática da espiritualidade em Jesus é compreendida pela ausência de preconceitos:
1.      Toca em pessoas alienadas pela sociedade - Lucas 5:13
2.      Senta à mesa com pessoas estigmatizadas de ladrões - Lc 19:1-10
3.      Possui a capacidade para aceitar pessoas com outras ideologias - Lucas 6:15
4.      Relaciona com homens de extrema direita - Lucas 7:36
5.      Respeito pelas mulheres - Lucas 8:1-3
B) A prática de espiritualidade de Jesus é compreendida pela ausência de esquemas (métodos de evangelização):
1.      Jesus agia de acordo com a cultura e de acordo comas situações usando o discernimento que quebra as regras;
2.      Ela agia sempre pelo amor ao próximo e nunca em benefício de si mesmo.
C) A prática de espiritualidade de Jesus é compreendida pela ausência de legalismos:
1.      Jesus rompeu o legalismo, criando o "novo"
·         Novo - povo Novo -homem
·         Novo - Mandamento Nova - lei ou nova - aliança
·         Nova - cidade Nova - Esperança
D) A prática de Espiritualidade de Jesus era movida pela oração
1.      ministério de oração de Jesus revela o seu lado humano;
2.      Ele orava quando se via na necessidade de orar, denotando a dependência de Deus no cumprimento da missão.
Há sim outros aspectos da espiritualidade prática de Jesus, mas entendemos que para a relevância de Atos 1:6-11 é mais quanto à prática da Igreja em continuar a missão de Jesus do que apenas contemplá-la. Sendo assim, falar da espiritualidade kerigmática de Atos 1:8 enquanto continuação da missão é anunciar Cristo e seu papel libertador-salvífico como princípios constantes da prática cristã. O evangelizar é o princípio de espiritualidade das comunidades cristãs. A prática da espiritualidade kerigmática é o caminho da humanidade, pois anuncia a salvação aos perdidos e cativos.
Em Atos, portanto, a espiritualidade kerigmática é entendida como o testemunho de Cristo, cujo modelo de espiritualidade é semelhante ao nosso: o próximo. A partir disso, as comunidades cristãs falavam de um relacionamento com o próximo através de Jesus. Não é a espiritualidade que nos leva a proclamar Jesus ao próximo, mas o próprio Jesus é quem nos leva à espiritualidade kerigmática. É por isso que todo o esforço para a criação de qualquer tipo de espiritualidade para a pregação deve nascer com a experiência da conversão. A comunidade de Jerusalém, por exemplo, começou a ter uma prática evangelizadora (anúncio kerigmático) por compreender a metanóia (conversão) como poder que testemunha a Cristo. A espiritualidade dessa comunidade só é autêntica porque foi fruto de uma experiência de conversão a Cristo.
A espiritualidade kerigmática que surge do encontro com Cristo varia de indivíduo para indivíduo; de circunstância para circunstância. Daí a importância da glossolalia do capítulo 2 de Atos: proporcionar a experiência de conversão a todos os povos. Essa experiência não se importou com a forma (modelo), mas sim com a essência pela qual ela motivaria outros a entenderem o chamado cristão, ou seja, ser testemunha fiel até os confins da terra.
Assim como os cristãos primitivos tiveram sua espiritualidade kerigmática, a Igreja moderna precisa também rever o tema da evangelização como algo ligado à espiritualidade do cristão. Ao rever essa situação, certamente perceberemos a essência motivadora com a qual cada indivíduo teve na experiência de conversão. Rever essa situação é ao mesmo tempo, traçar modelos de espiritualidade que visam conscientizar os cristãos enquanto testemunhas de Jesus. Tais tentativas de modelos de espiritualidade podem ser:
1.      O descompromisso com o sofrimento. Mesmo sendo espirituais, nós somos movidos por nossas fraquezas pessoais;
2.      O anúncio da redenção e da restauração, pois tal experiência altera todo o modelo de vida por meio da conversão a Jesus;
3.      A experiência de se tornar um em Cristo, ou seja, a realidade da comunhão.
A autêntica espiritualidade segue o modelo cristológico e prossegue como modelo eclesiológico. Ter uma espiritualidade kerigmática é entender as estruturas eclesiásticas que nos possibilitam a evangelização do mundo para o anúncio da fé em Cristo. Ser testemunha de Cristo por todo o mundo é estar constantemente anunciando-o como senhor, salvador e redentor.

Por. Wilhan José Gomes