quarta-feira, 30 de novembro de 2022

A CONVERSÃO VERDADEIRA E A FALSA

 



A CONVERSÃO VERDADEIRA E A FALSA

"Mas todos vós que acendeis fogo, e vos cingis com tições acessos, ide, andai entre as chamas do vosso fogo, e entre os tições que acendestes. Isto é que recebereis da minha mão: Em tormentos jazereis."-- Isaías 50:11

 É evidente pelo contexto destas palavras no capítulo, que o profeta se dirige àqueles que professam ser religiosos, que se dizem que estão salvos, mas que, na realidade, sua esperança era um fogo que eles mesmos tinham acendido, e as faíscas, criadas por este fogo. Antes de seguir adiante na discussão do tema, desejaria dizer que, como já me foi dada notícia de que minha intenção era discutir a natureza da conversão verdadeira e da falsa, não servirá de nada o escutá-lo, excepto para aqueles que sejam sinceros e o apliquem a si mesmos. Se você espera vi a beneficiar da mensagem, tem que resolver aplicá-lo fielmente, de modo tão sincero como se pensasse que estivesse no juízo solene. Se o fizer, pode esperar que o conduza a descobrir o seu verdadeiro estado, e se estiver enganado, dirigir-se ao verdadeiro caminho da salvação. Se você não quer faze-lo, estarei pregando em vão, e você ouvirá em vão.
Espero mostrar a diferença entre a conversão verdadeira e a falsa, a apresentarei o tema na seguinte ordem:
 I. Mostrar que o estado natural do homem é o de puro egoísmo.
II. Mostrar que o carácter do convertido é o de benevolência.
III. Que o novo nascimento consiste numa mudança do egoísmo para a benevolência.
IV. Contestar algumas objecções que podem resistir o ponto de vista que tomo e terminar com alguns comentários.
 I. Vou mostrar que o estado natural do homem, ou o estado em que se encontra o homem antes da conversão, é egoísmo puro e sem mistura. Com isso quero dizer que não conhece a benevolência do Evangelho. O egoísmo é considerar a felicidade própria como objectivo supremo, e buscar o bem próprio pelo fato de ser seu. O que é egoísta coloca sua própria felicidade e busca seu próprio bem porque é seu. De modo egoísta coloca sua própria felicidade por cima de outros interesses de maior valor; tais como a glória de Deus e o bem do universo. É evidente que a humanidade se encontra neste estado e digo isto por muitas considerações.
Todo o mundo sabe que os outros são todos egoístas. Todos os tratos da humanidade são conduzidos sobre este princípio. Se o homem o perde de vista e empreende tratos com a humanidade como se não fossem egoístas, senão desinteressados, os demais pensarão que aquele homem está louco.
II. No estado do convertido, o carácter predominante é o de benevolência.
Um indivíduo convertido é benevolente, e não egoísta, no essencial. Benevolente é uma palavra composta que propriamente significa desejar o bem, ou seja, escolher a felicidade suprema dos outros. Este é o estado e Deus. Nos é dito que Deus é amor; isto é, que é benevolente. A benevolência compreende todo seu carácter. Todos seus atributos morais são apenas modificações da benevolência. Um indivíduo convertido se assemelha a Deus neste aspecto. Não quero que se entenda que ninguém é convertido a menos que seja pura e perfeitamente benevolente, como Deus é; mas sim que no equilíbrio de sua mente a característica que prevalece é a benevolência. Com sinceridade busca o bem dos outros por amor a eles. E, por benevolência desinteressada não sente interesse no objectivo que persegue, senão que busca a felicidade dos outros por amor a eles e não com olhos a sua reacção a favor de si mesmo, que vai aumentar sua felicidade. Decide fazer bem porque se alegra na felicidade dos outros, e deseja a felicidade deles por ela em si mesma para glória de Deus. Deus é benevolente de modo puro e desinteressado. Ele não faz as criaturas felizes para assim aumentar a sua própria felicidade, senão que as ama por felicidade delas e as busca por amor às mesmas. Não que não se sinta feliz ao fomentar a felicidade das criaturas, mas não o faz para sua própria satisfação. O homem desinteressado sente-se feliz em fazer o bem. De outra maneira o fazer bem em si não teria nenhuma virtude e de outro modo o fazer bem não seria virtuoso em si. Noutras palavras, se não lhe fosse agradável fazer bem e não se alegrasse fazendo-o, não seria uma virtude nele.
A benevolência é a santidade. É o que a lei de Deus requer: Amarás ao Senhor teu Deus com todo teu coração, e com toda tua alma e com toda tua força, e a teu próximo com a ti mesmo. Com a mesma certeza que o convertido rende obediência à lei de Deus, e de modo tão seguro como ele é de Deus, é benevolente. É o rasgo mais saliente de seu carácter, o buscar a felicidade dos outros, e não a sua própria, como seu objectivo supremo.
 III. A verdadeira conversão é uma mudança do estado de supremo egoísmo àquela benevolência.
É uma mudança no objectivo da actividade, não uma mera mudança do meio de alcançar o seu fim. Não é verdade que os convertidos e os não convertidos difiram apenas nos meios que usam, enquanto perseguem o mesmo objectivo. Não é verdade que Gabriel e Satanás estejam tratando de alcançar o mesmo objectivo, os dois procurando sua própria felicidade, ainda que a busquem de modo distinto. Gabriel não obedece a Deus com olhos a incrementar sua própria felicidade. Um homem pode mudar seus meios e contudo apontar a conseguir o mesmo objectivo, sua própria felicidade. É possível que faça bem com os olhos postos num benefício temporário, terreno. Pode não crer na religião, nem na eternidade, e contudo fazer bem porque isto lhe é vantajoso neste mundo. Suponhamos, pois, que seus olhos se abrem, e vê a realidade da eternidade; e então torna-se religioso como meio de conseguir sua felicidade na eternidade. Pode-se ver bem que não há nenhuma virtude benévola nele. É a intenção que dá carácter ao acto, não o meio empregado para realizar a intenção. O convertido verdadeiro e o falso diferem nisto. O verdadeiro convertido escolhe a glória de Deus e o bem de seu reino como objectivo de seus esforços. Este objectivo o escolhe por si, pelo que é, porque o vê como seu maior bem, como um bem maior que sua própria felicidade individual. Não que seja indiferente a sua própria felicidade, senão que prefere a glória de Deus, porque é um bem maior, supremo. Olha à felicidade de cada indivíduo em particular segundo sua verdadeira importância, na medida que lhe é possível avaliá-la, e ele é que escolhe o sumo bem como seu objectivo supremo.
 IV. Agora vou mostrar algumas coisas em que os verdadeiros santos e as pessoas enganadas podem estar de acordo e algumas em desacordo.
1. Podem estar de acordo em levar uma vida estritamente moral.
A diferença está nos seus motivos. O verdadeiro santo leva uma vida moral por amor à santidade; a pessoa enganada, por considerações egoístas. Usa a moralidade como um meio para alcançar um fim, com olhos na sua própria felicidade. O verdadeiro santo tem moralidade como um objectivo singular.
2. Os dois podem orar igualmente, pelo menos quanto à forma.
A diferença está nos motivos. O verdadeiro santo ama a oração; o outro o faz porque espera conseguir algum benefício para si da oração. O verdadeiro santo espera um benefício para si da oração, mas este não é o motivo principal. O outro ora sem ter nenhum outro motivo.
3. Os dois podem ser diligentes na religião.
Um porque pode ter uma grande diligência, porque sua diligência é segundo seu conhecimento, deseja sinceramente e ama fomentar a religião, por amor à mesma. O outro pode mostrar uma diligência idêntica, com olhos de assegurar sua própria salvação e nada mais, ou porque tem medo de ir para o inferno se não faz a obra do Senhor, ou para aquietar sua consciência e não porque ama a religião em si.
4. Os dois podem ser conscientes no cumprimento do dever; o verdadeiro convertido porque quer e ama fazer este dever, o outro porque não se atreve a descuida-lo por mero egoísmo de conveniência.
5. Os dois podem prestar a mesma atenção a praticar a rectidão; o verdadeiro convertido porque ama a rectidão, o outro porque sabe que não pode ser salvo a menos que o faça. É sincero em suas transacções e negócios, porque isto é o único que assegura seu próprio interesse. Verdadeiramente, "já receberam sua recompensa". Conseguem a reputação de serem pessoas sinceras, mas não há motivo superior, e não haverá recompensa de Deus que sobre para eles.
6. Podem estar de acordo em seus desejos em muitos aspectos. Podem estar de acordo em seu desejo de servir a Deus; o verdadeiro convertido porque ama o serviço de Deus, e a pessoa enganada, pela recompensa, como o servo assalariado serve a seu senhor.
Podem estar de acordo em seus desejos de serem úteis, o verdadeiro convertido porque deseja ser útil em si; o enganado porque este é o meio de obter o favor de Deus. Na proporção em que tem sido despertada a importância de ter o favor de Deus será a intensidade de seus desejos em ser útil e prestável.
Em seu desejo pela conversão das almas, o verdadeiro santo porque quer glorificar a Deus; o enganado para ganhar o favor de Deus. Aquilo que o move a isto o mesmo, também o faz dar dinheiro às Sociedades Missionárias ou à Sociedade Bíblica. Motivos egoístas somente, para procurar a felicidade, o aplauso ou obter o favor de Deus.
E quanto a glorificar a Deus, o verdadeiro convertido porque ama ver a Deus glorificado, a pessoa enganada porque sabe que este é o meio de ser salvo. O verdadeiro convertido pôs seu coração na glória de Deus, como seu grande objectivo, e o deseja como um fim, pela glória de Deus. O outro deseja esta glória como um meio para seu grande fim, o benefício próprio.
Com respeito ao arrependimento, o verdadeiro convertido aborrece o pecado por sua natureza odiosa, porque desonra a Deus. O outro, porque sabe que sem o arrependimento vai ser condenado.
E quanto ao crer em Jesus Cristo, o verdadeiro santo o deseja para glorificar a Deus, porque ama a verdade por si só. O outro o faz porque assim pode ter uma esperança maior de chegar ao céu.
Com respeito a obedecer a Deus, o verdadeiro santo o faz para aumentar sua santidade; o que professa falsamente, porque deseja a recompensa da obediência e não a obediência por si só.
7. Podem estar de acordo não só nos desejos, senão também nas resoluções. Podem decidir renunciar ao pecado e obedecer a Deus, procurar o progresso da religião e o reino de Cristo; e fazê-lo com grande energia de propósito, mas movidos por motivos opostamente distintos.
8. Podem estar de acordo também em seus desígnios. Fazem planos para glorificar a Deus, converter aos homens e estender o reino de Cristo; o verdadeiro santo por amor a Deus e a santidade; o outro por sua própria felicidade. Para o primeiro é um fim, para o outro um meio para perseguir o objectivo egoísta.
Podem tentar ser santos; o verdadeiro convertido porque ama a santidade porque a santidade glorifica a Deus, o enganado porque sabe que não pode ser feliz de outra maneira.
9. Eles podem concordar não somente nos seus desejos, decisões e desígnios, mas também em seus afectos para muitas coisas.
Podem os dois amar a Bíblia; o verdadeiro santo, porque é a verdade de Deus, se deleita nela e é um banquete para sua alma; o outro porque crê que lhe favorece e fomenta suas esperanças.
Podem servir os dois a Deus; o primeiro porque vê o carácter de Deus em sua suprema excelência e amor; o outro porque pensa em Deus como um amigo particular, que vai faze-lo feliz para sempre e relaciona a ideia de Deus com seu próprio interesse.
Os dois podem amar a Cristo. O verdadeiro convertido porque ama seu carácter; o enganado, porque lhe salva do inferno e lhe dá a vida eterna, então porque não amá-lo?
Podem os dois amar aos cristãos: o verdadeiro convertido porque lê neles a imagem de Cristo, e o enganado porque pertencem à sua própria denominação, ou porque estão do seu lado, sentindo que têm os mesmos interesses e esperanças que ele.
10. Podem estar de acordo em odiar as mesmas coisas. Podem odiar a infidelidade e oporem-se a ela extremamente; o santo porque isso se opõe a Deus e à santidade, e o enganado porque prejudica os interesses a que se dedica e destrói suas próprias esperanças para a eternidade. Podem também odiar o erro; o primeiro porque é detestável em si e contrário a Deus, o outro porque é contrário a seus pontos de vista e opiniões.
Lembro de ter visto escrito faz algum tempo um ataque a um ministro por publicar certas opiniões, "porque &endash; dizia o escritor &endash; estes sentimentos destruiriam todas as minhas esperanças para a eternidade". E esta é uma boa razão, a melhor que uma pessoa egoísta necessita para opor-se a uma opinião.
Os dois odeiam o pecado; o verdadeiro convertido porque é odioso a Deus, a pessoa enganada porque lhe prejudica. Tem ocorrido casos em que um indivíduo tem odiado seus próprios pecados, mas não os tem abandonado. Quantas vezes um bêbado, olhando para trás ao que era, e contrastando sua degradação presente com o que tinha sido, aborrece a bebida; mas não pela bebida em si, o que ela é, senão porque tem causado sua desgraça. E todavia segue bêbado, ainda que ao considerar os efeitos da mesma se sente cheio de indignação.
Os dois podem se sentir opostos aos pecadores. A oposição do verdadeiro santo é uma oposição benevolente, com miras a aborrecer seu carácter e conduta, já que estas subvertem o reino de Deus. O outro se opõe aos pecadores porque estes se opõem à religião que ele defende, porque não estão do seu lado.
11. Ou mesmo, os dois podem alegrar-se nas mesmas coisas. Ambos se alegram na prosperidade de Sião, e na conversão das almas; o verdadeiro convertido porque tem o coração posto nisso, e o considera o maior bem possível, e o enganado porque isto, em particular, crê que faz prosperar seus interesses.
12. Os dois podem se chatear e se sentirem angustiados pelo baixo estado da religião nas igrejas; o verdadeiro convertido porque Deus é desonrado, e a pessoa enganada porque sua própria alma não está feliz, ou porque a religião não está em seu favor.
Os dois podem desfrutar da sociedade dos santos; o verdadeiro convertido porque sua alma se alegra na conversa espiritual, o outro porque espera tirar algumas vantagens da companhia. O primeiro desfruta porque "a boca fala do que o coração está cheio"; o outro porque lhe gosta falar sobre o grande interesse que sente na religião, e a esperança que tem de chegar ao céu.
13. Os dois podem desfrutar assistindo a reuniões religiosas; o santo porque seu coração se deleita nos actos de adoração, oração e louvor, e ouvindo a palavra de Deus em comunhão com Deus e com os santos, e o outro porque pensa que uma reunião religiosa é um bom lugar para fomentar sua esperança. Pode ter cem razões para querê-las, e delas nenhuma é pelas reuniões em si, pelo serviço prestado a Deus.
14. Os dois podem encontrar prazer em seu dever na oração. O santo porque o aproxima de Deus, se deleita na comunhão com Deus, onde se encontra livre para dirigir-se directamente a Deus, sem estorvos e conversar com Ele. A pessoa enganada encontra uma espécie de satisfação nela, porque é um dever orar a Deus em segredo e sente a satisfação própria de cumpri-lo. Pode inclusive sentir um certo prazer nela, uma espécie de emoção que confunde com a comunhão com Deus.
15. Os dois podem amar as doutrinas da graça; o verdadeiro santo porque são tão gloriosas; o outro porque as considera a garantia de sua própria salvação.
16. Os dois podem amar os preceitos da lei de Deus; o santo porque são tão excelentes, santos, justos e bons; o outro porque crê que lhe fará mais feliz se os ama, e portanto são um meio para sua felicidade.
Ambos podem consentir no castigo da lei. O verdadeiro santo porque considera que será justo em si que Deus lhe envie para o inferno. O enganado porque se regozija pensando que ele está fora de risco. Sente respeito para o feito, porque sabe que é recto e sua consciência o aprova, mas nunca consentiria nele em seu próprio caso.
17. É possível que sejam iguais em sua generosidade para dar às sociedades de beneficência. Sem dúvida que os dois podem dar somas iguais, mas os motivos são diferentes. Um dá para fazer bem e o mesmo daria se soubesse que não havia outra pessoa viva que desse. O outro para conseguir um mérito, para aquietar sua consciência e para inclinar para si o favor de Deus.
18. É possível que se neguem os dois as mesmas coisas. A abnegação não está confinada aos verdadeiros santos. Para dar-nos em conta dele basta olharmos aos mahometanos, indo para suas peregrinações a Meca. Olhe aos pagãos, atirando-se debaixo do carro de Juggernaut. Ou mesmo aos pobres ofuscados, dentro do mesmo mundo chamado cristão, os católicos que sobem degraus de escadarias de joelhos, derramando sangue. Um protestante dirá que não há religião aqui, mas não poderá negar que há um negar-se a si mesmo, seja qual seja o objectivo. O verdadeiro santo se negará a si mesmo para fazer mais bem a outros, não a ele mesmo. A pessoa enganada o fará por motivos egoístas de modo exclusivo.
19. Os dois podem estar dispostos a sofrer o martírio. Leia a vida dos mártires e não fica a menor dúvida que estavam dispostos a sofrer, mas alguns deles o faziam com a ideia errónea da recompensa do martírio e se lançavam à destruição porque estavam persuadidos que isto lhes assegurava o caminho livre para a vida eterna.
Em todos estes casos, os motivos de uma classe estão em directa oposição aos da outra. A diferença encontra-se nos objectivos. O primeiro escolhe seu próprio interesse, o outro o interesse de Deus como seu objectivo final. O que diz que os dois têm o mesmo objectivo diz que um pecador impenitente é tão benevolente como um cristão real; ou que um cristão não é benevolente, como Deus é, senão que busca sua própria felicidade, e que a procura na religião, não no mundo.
E este é o lugar apropriado para a resposta a uma pergunta que se costuma fazer: "Se estas duas classes de pessoas são tão semelhantes em tantos pontos, como vamos conhecer nosso próprio carácter real, a qual dos grupos pertencemos? Sabemos que o coração é enganoso sobre todas as coisas e perverso, e como vamos saber se amamos a Deus e a santidade por si mesmos ou bem se buscamos o favor de Deus e procuramos chegar ao céu como um benefício próprio?"
Vou responder:
1. Se você é verdadeiramente benevolente, aparecerá em seus tratos diários. Este carácter, se é real, mostrar-se-á em seus assuntos, em todas as suas facetas. Se o egoísmo rege a sua conduta, é absolutamente certo que é verdadeiramente egoísta. Se nos nossos tratos com os homens somos egoístas, também o somos em nossos tratos com Deus. "Porque quem não ama a seu irmão que pode ver, como pode amar a Deus que não se pode ver?" A religião não é meramente amar a Deus, senão também amar o homem. Se em nossas transacções diárias mostramos que somos egoístas, não somos convertidos; de outro modo a benevolência não é essencial à religião, e um homem pode ser religioso sem amar a seu próximo como a si mesmo.
2. Se você não tem interesse na religião, os deveres religiosos não lhe interessam. Você acercar-se-á da religião como um trabalhador vai a sua tarefa, por amor a ganhar a vida. O que trabalha encontra prazer em seu trabalho, mas não é por ele em si. Preferiria não fazê-lo se pudesse. Em sua natureza é uma tarefa, e se tem algum prazer nela é porque espera de antemão os resultados, ele sustém o bem-estar da família, ele incrementa a sua propriedade.
Este é precisamente o estado de algumas pessoas com respeito à religião. Aproximam-se dela como um enfermo toma sua medicina, porque desejam seus efeitos e eles sabem que a necessitam, senão perecerão. É uma tarefa que nunca fariam pelo seu próprio valor. Suponhamos que um homem amasse trabalhar, como uma criança ama brincar. Eles fariam isto o dia todo e nunca ficariam cansados de fazê-lo, sem nenhum outro motivo senão o prazer que eles auferem. Então, assim é na religião, onde a amam pelo seu próprio valor, não haverá desanimo nela.
3. Se o egoísmo é o carácter prevalecente da sua religião, tomará às vezes uma forma, às vezes outra. Por exemplo: se for um período de frieza geral na igreja, os convertidos verdadeiros ainda desfrutariam em sua comunhão secreta com Deus, ainda que isto não chegará ao conhecimento dos demais. Mas a pessoa enganada nestes casos sente-se atraída pelo mundo. Agora, se os verdadeiros santos se levantam e fazem ruídos, falam da alegria em voz alta, de modo que a religião começa a ser um tema de conversação outra vez; talvez algum destes enganados comece a mover-se e parecerão mais diligentes que um verdadeiro santo. Ver-se-á impelido por suas convicções e não por seus afectos. Quando não há interesse público, não sente a convicção; mas quando a igreja se desperta sente a convicção e vê-se impelido a mover-se, para ter quieta a sua consciência. É só um egoísmo em outra forma.
4. Se você é egoísta, a sua alegria na religião dependerá principalmente da firmeza das suas esperanças acerca do céu e não do exercício pleno de seus afectos. Seus gozos não são aplicar-se às coisas religiosas, senão a de uma natureza muito distinta daquela dum verdadeiro santo. São em sua maioria meras antecipações. Quando se sente seguro para ir para o céu, então alegra-se muito na religião; depende tudo da esperança que sente ou não, não do amor, pelas coisas que espera. Ouve-se pessoas que perdem seu gozo na religião quando decresce sua esperança. A razão é evidente. Amam a religião não por ela em si, senão que seu gozo depende de sua esperança. Se os deveres da religião não sãos as coisas em que se alegra e se todos os gozos dependem da sua esperança, não tem uma verdadeira religião; tudo não passa de egoísmo.
Não digo que os verdadeiros santos não se gozam em sua esperança. Mas isto não é o principal neles. Pensam muito pouco em suas esperanças. Seus pensamentos se empregam e ocupam doutra coisa. A pessoa enganada, ao contrário, dá-se sempre conta de que não goza nos deveres da religião; só os cumpre porque confia que há um céu. Só tem o gozo nele como o homem que trabalha espera encontrar a recompensa de seu trabalho.
5. Se você é egoísta na religião, seus gozos serão principalmente em forma de antecipação. O verdadeiro santo desfruta já da paz de Deus e o céu começa já em sua alma. Não somente tem a perspectiva da mesma, senão que a vida eterna já começou realmente nele, em si. Tem fé, a que é a mesma substância das coisas que se esperam. Mais, tem já verdadeiros sentimentos celestiais nele. Goza de antemão gozos inferiores em grau, mas não distintos em natureza. Sabe que o céu já começou para ele e não está obrigado a esperar para provar os gozos da vida eterna. Seu gozo está em proporção à sua santidade e não em proporção a sua esperança.
6. Outra diferença pela qual podemos saber se somos egoístas na religião é esta: a pessoa enganada tem o propósito de obedecer, enquanto que o outro prefere obedecer. Esta é uma importante distinção e eu temo que poucas pessoas a façam. Multidões têm o propósito de obedecer e não preferem obedecer. Preferência é a escolha verdadeira, ou obediência do coração. Você frequentemente ouve indivíduos falarem que têm o propósito de fazer esse ou aquele acto de obediência, mas não o fazem. E eles contarão o quanto é difícil executar seus propósitos. O verdadeiro santo, por outro lado, realmente prefere e seu coração escolhe obedecer e ele acha fácil obedecer. O primeiro tem o propósito de obedecer, como o que Paulo tinha antes de ser convertido, como nos conta no capítulo sete de Romanos. Ele tinha um propósito firme de obedecer, mas não obedecia, porque seu coração não estava nisso. O verdadeiro convertido prefere obedecer pelo próprio valor da obediência; ele realmente escolhe isso, e faz isso. O outro se propõe a ser santo, porque ele sabe que é o único caminho para ser feliz. O verdadeiro santo escolhe a santidade pelo seu próprio valor, pois ele é santo.
7. O verdadeiro convertido e a pessoa enganada diferem também em sua fé. O verdadeiro santo tem confiança no carácter geral de Deus, que o conduz a uma submissão a Deus sem atenuantes. É falado muito de classes de fé, sem muito sentido. A verdadeira confiança nas promessas especiais de Deus depende da confiança no carácter geral de Deus. Só há dois princípios pelos quais se obedece a qualquer governo, humano ou divino, o temor e a confiança. Não importa se trata do governo da família, um barco, uma nação ou um universo. Num caso os indivíduos obedecem pela esperança à recompensa e o temor ao castigo. No outro, pela confiança no carácter do governo, que obra por amor. O outro cede num externo de obediência, por esperança e por temor. O verdadeiro convertido tem a fé e a confiança em Deus que lhe conduz a obedecer porque ama a Deus. Esta obediência é fé. Tem confiança em Deus, pelo que se submete totalmente à mão de Deus.
O outro tem só uma fé parcial, e só uma submissão parcial. O diabo tem esta fé parcial. Crê e treme. Uma pessoa pode crer que Cristo veio para salvar aos pecadores e baseando-se nisto submete-se para ser salvo; ao fazê-lo não se submete a ele, para ser governado por ele. Sua submissão é só uma condição para ser salvo. Nunca tem a confiança sem reservas no carácter de Deus que lhe conduz a dizer: "Seja feita a tua vontade." Só se submete para ser salvo. Sua religião é a religião da lei. A do outro é a do Evangelho. A primeira é egoísta, a outra benevolente. Aqui está a verdadeira diferença entre as duas classes. A religião de um é externa e hipócrita. A do outro é santa e aceitável a Deus.
8. Só mencionarei uma diferença mais. Se a sua religião é egoísta, você alegrar-se-á de modo particular na conversão dos pecadores quando você tem participação nela, mas encontrará pouca satisfação quando tem lugar pela intervenção de outros. A pessoa egoísta alegra-se quando tem actividade e êxito na conversão de pecadores, pois pensa que terá recompensa como resultado. Mas não se deleita quando é a obra de outros, na verdade o que sente é inveja. O verdadeiro santo deleita-se de modo sincero em que outros sejam úteis, regozija-se quando os pecadores se convertem graças à intervenção dos outros como se fosse pela sua própria. Há alguns que tomam interesse num avivamento só enquanto lhes afecta em suas actividades, mas são indiferentes se os pecadores ficam sem se converter quando são salvos por obra dum evangelista ou um ministro que pertence a outra denominação. O verdadeiro espírito dum filho de Deus é dizer: "Senhor, envia a quem quiser, apenas que estas almas sejam salvas e teu nome seja glorificado."
V. Vou contestar a algumas objecções que se fazem contra este ponto de vista no tema.
OBJEÇÃO 1. "Não tenho que ter interesse em minha própria felicidade?"
Contestação. É próprio e justo que cada um se interesse em sua própria felicidade, desde que possa coloca-la numa escala relativa. Posta na balança com a glória de Deus e o bem do universo e apenas então decidir qual aquele valor que lhe pertence. Isto é precisamente o que faz Deus. E isto é o que quer dizer quando nos manda que amemos ao próximo como a nós mesmos.
Mais, de fato você vai fazer aumentar sua própria felicidade precisamente na proporção em que a deixe fora dos seus objectivos. A sua felicidade será em proporção do seu desinteresse. A verdadeira felicidade consiste principalmente na satisfação dos desejos virtuosos. Pode haver prazer nas satisfações que são egoístas, mas não é uma felicidade verdadeira. Para serem virtuosos os desejos devem ser desinteressados. Suponhamos que um homem vê um mendigo na rua; está ali sentado deprimido, sem amigos e vai perecer. O homem sente-se comovido e compra-lhe um pão. O rosto do pobre brilha e seu olhar demonstra gratidão. É evidente que a satisfação do homem que praticou o acto será em relação à pureza de seu propósito. Se o fez só por benevolência, sua santificação é completa no acto em si. Se o fez por caridade em parte somente, não basta, necessita que seu acto seja reconhecido por outros. Suponhamos que se trata de um pecador no lugar do mendigo. E que alguém, movido pela compaixão o conduz ao Salvador. O homem é salvo. Se os motivos do que faz o acto são obter honra dos homens e assegurar-se o favor de Deus, este homem espera que seu acto seja feito público. Se seus motivos são totalmente desinteressados, a satisfação é completa e a alegria sem mistura. Nos deveres religiosos a felicidade está em proporção ao desinteresse.
Se o seu objectivo é fazer o bem em si mesmo e por si, logo você é feliz na proporção em que o faz. Mas se você persegue a própria felicidade, fracassará. É como a criança que persegue a sua sombra: nunca a alcança, sempre está adiante dele. Suponhamos pelo exemplo que dei, que você não tem o desejo de aliviar o mendigo, mas considera simplesmente o provável aplauso de certos indivíduos que ouvem sobre o que fez e comentam; só assim fica contente. Mas você não fica contente pelo fato dele estar aliviado em si. Ou suponha que você aponta para a conversão de pecadores; mas se não é o amor aos pecadores que o leva a fazer isto, como pode a conversão de pecadores faze-lo feliz? Isso não tende a satisfazer, pois o desejo impulsionou o esforço. A verdade é que Deus constituiu a mente do homem de tal forma que deve buscar a felicidade dos outros como seu objectivo, pois de contrário falha em sua intenção de poder encontrá-la. Aqui tem a verdadeira razão pela que o mundo, mesmo buscando a sua própria felicidade e não a dos outros, não alcança o seu objectivo.
OBJEÇÃO 2. "Não considerou Cristo o gozo posto diante dele? Não teve consideração Moisés à recompensa do premio: Não diz a Bíblia que amamos a Deus porque Ele nos amou primeiro?"
Resposta numero 1. É verdade que Cristo desprezou a vergonha e sofreu a cruz, e considerou o gozo posto diante dele. Mas, Qual era este gozo posto diante dele? Não sua própria salvação nem sua própria felicidade, senão o grande bem que resultaria da salvação do mundo. Ele era perfeitamente feliz em si. Seu objectivo era a felicidade dos outros. Este é o gozo proposto a Cristo. E o alcançou.
Resposta número 2. Moisés tinha considerado a recompensa do prémio. Mas, era para seu próprio bem-estar? De modo algum. A recompensa do prémio era a salvação do povo de Israel. O que disse? Quando Deus lhe propôs destruir a nação e fazer dele uma grande nação, se Moisés tivesse sido egoísta teria dito: "Bem, Senhor, seja feito segundo aquilo que dizes." Mas, porque contestou? Seu coração estava posto na salvação de seu povo, na glória de Deus e não quis pensar nem um momento em si mesmo. "Se queres, perdoa-lhes seu pecado; e se não, tira-me de teu livro em que escreveu meu nome." E agregou: "Se os destróis, os egípcios saberão e todas as nações dirão: Jeová não pôde levar seu povo a uma terra prometida." Moisés não podia consentir na ideia de que seus próprios interesses fossem exaltados às custas da glória de Deus. Para sua mente benevolente, o maior premio era a glória de Deus e a salvação dos filhos de Israel, antes de qualquer vantagem pessoal que pudesse cair sobre ele.
Resposta número 3. Na expressão "amamos a Ele porque Ele nos amou primeiro" é evidente que cabem duas interpretações: pode ser que seu amor nos tenha proporcionado o caminho para que o devolvamos e a influência que nos foi feita que lhe amemos, ou talvez que o amemos pelo favor que tenha feito a nós. É evidente que o sentido não é este último, pois Jesus Cristo mesmo reprovou de modo expresso o princípio em seu sermão no monte: "Se amardes os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os cobradores de impostos também o mesmo?" Se amamos a Deus não por seu carácter, senão por seus favores, Jesus Cristo mesmo nos reprova.
OBJEÇÃO 3. "Não oferece a Bíblia a felicidade como recompensa pela virtude?"
Resposta. A Bíblia fala da felicidade como resultado da virtude, mas nunca diz que a virtude consiste em perseguir a própria felicidade. A Bíblia em seu espírito é oposta a isto e representa a virtude como fazer o bem a outros. Se a pessoa deseja o bem dos outros, será feliz em proporção da satisfação desse mesmo desejo. A felicidade é o resultado da virtude, mas a virtude não consiste na busca da própria felicidade, o qual seria uma incoerência.
OBEJEÇÃO 4. "Deus procura nossa própria felicidade, e temos nós que ser mais benevolentes que Deus? Não temos que ter como objectivo o mesmo objectivo de Deus? Não deveríamos buscar o mesmo que Deus busca?"
Contestação. Esta objecção não só é enganosa, senão fútil e tortuosa. Deus é benevolente para outros. Ele procura a felicidade de outros, a nossa. Se formos como Ele, temos que procurar isto mesmo, deleitar-nos em sua felicidade e glória e a glória e honra do universo, segundo seu valor real.
OBEJÇÃO 5. "Porque é que a Bíblia apela continuamente às esperanças e temores dos homens, se o considerar a própria felicidade não tem como ser motivo para tal?"
Resposta número 1. A Bíblia apela à constituição mental do homem, mas não apela ao seu egoísmo. O homem teme o dano e não há nada de mal em evitá-lo. Podemos ter o devido respeito pela nossa felicidade, segundo seu valor.
Resposta número 2. Novamente, a humanidade tem sido embrutecida pelo pecado e Deus não pode conseguir que os homens considerem seu verdadeiro carácter e as razões que tem para amá-lo, a menos que apele às suas esperanças e temores. Mas quando são despertados, então se apresenta-lhes o Evangelho. Quando um ministro prega sobre os terrores do Senhor até que tenha conseguido alarmar a seus ouvintes e desapertá-los, então eles prestarão atenção; mas assim que haja sido entendido, deve-lhes então apresentar o carácter de Deus completo diante de seus olhos, para conseguir que seus corações O amem por sua própria excelência.
OBJEÇÃO 6. "Não dizem os autores inspirados: Arrependam-se e creiam no Evangelho e sereis salvos?"
Resposta. Sim, mas requer-se o "verdadeiro" arrependimento; isto é, o abandonar o pecado porque é odioso em si. Não é um arrependimento verdadeiro abandonar o pecado como condição do perdão, ou dizer: "Vou sentir remorso pelos meus pecados, se me perdoares." Do mesmo modo que se requer verdadeira fé e verdadeira submissão; não uma fé condicional, ou uma submissão parcial. Isto é o que a Bíblia diz. Diz que seremos salvos mas deve ser por meio do arrependimento desinteressado, a submissão desinteressada.
OBJEÇÃO 7. "Não apresenta o Evangelho o perdão como um motivo para a submissão?"
Resposta. Depende do sentido em que se usa a palavra motivo. Caso se queira dizer que Deus apresenta diante dos homens o seu carácter e toda a verdade, como razões para motivar o pecador ao amor e ao arrependimento, digo: Sim. Sua comparação e sua boa vontade para perdoar são razões para amar a Deus, porque fazem parte da sua gloriosa excelência, que temos que amar. Mas se queremos ter por "motivo" uma condição, que o pecador está arrependido sobre a condição de ser perdoado, então digo que a Bíblia não defende em nenhum lugar este ponto de vista sobre o assunto. Nunca autoriza o pecador a dizer: "Vou-me arrepender se me perdoares" e não oferece o perdão como motivo para o arrependimento neste sentido.
Vou terminar com dois comentários.
1. Vemos, ao falar deste tema, porque é que os que professam religião têm pontos de vista tão diferentes a respeito a natureza do Evangelho.
Alguns o consideram como um mero assunto de acomodação ou facilitação para a humanidade, por meio do qual Deus se faz menos restrito do que era através da lei; e que assim podem seguir a moda e viver como mundanos e que o Evangelho virá para compensar as diferenças e salvá-los. Os outros vêem o Evangelho como uma provisão da benevolência divina, cuja principal intenção é destruir o pecado e promover a santidade e que portanto, em vez de tornar possível o ser menos santos do que eram sob a lei, todo o valor consiste no poder de torná-los mais santos.
2. Vemos o porquê de que algumas pessoas têm muito mais interesse em converter os pecadores, do que em ver a igreja santificada e a glorificar Deus através das boas obras do seu povo.
Muitos sentem uma simpatia natural pelos pecadores e querem salva-los do inferno; e se são ganhos já não terão com que se preocupar. Mas os verdadeiros santos sentem-se mais afectados pelo pecado como uma desonra a Deus. E estes estão mais afligidos ao ver que os cristãos pecam, porque ainda desonram mais a Deus. Parece que alguns não se preocupam muito com como vive a igreja tanto conquanto a obra da conversão siga adiante. Há os que não sentem ânsias de que Deus receba honra acima de tudo. Mostram que não são activados por amor à santidade, senão por mera compaixão pelos pecadores.



 Charles G. Finney

A HISTÓRIA DA BÍBLIA (PARTE 02)

 História do Novo Testamento


A) Primeiro, a comunidade

Em torno de Jesus tinha-se reunido a comunidade dos que tinham acreditado nele. Depois da ressurreição, depois que tinham sido iluminados pelo Espírito Santo, os discípulos começaram a viver e a propagar a mensagem cristã. Eles aceitavam as Escrituras Sagradas que tinham recebido da tradição judaica. Já agora, porém, iluminados pelo Espírito Santo e assistidos continuamente pelo Cristo, liam as Escrituras sob uma nova luz. Temos uma imagem clara dessa situação nova na passagem de Lucas (24,13-32), que nos conta a aparição de Jesus aos dois discípulos que iam a caminho de Emaús. Iam, naquele domingo da ressurreição, conversando sobre os últimos acontecimentos. Tinham ficado desorientados com a morte de Jesus e já não sabiam o que pensar. Disse-lhes, então, Jesus (vers. 25):

"Como vocês demoram a entender e a crer em tudo o que os profetas disseram... Começou, então, a explicar todas as passagens das Escrituras Sagradas que falavam dele, começando com os livros de Moisés e os escritos de todos os profetas".

Aliás, o apóstolo Paulo (2Cor 3,14) diz que somente a aceitação de Jesus pela fé nos abre os olhos para uma exata compreensão do Antigo Testamento.

Pois bem. A comunidade cristã, a Igreja, vivia e anunciava a salvação pela fé em Jesus. Sua preocupação era conservar fielmente a mensagem recebida e dar um testemunho sobre os fatos presenciados pelos apóstolos e discípulos. É o que transparece nas palavras de Paulo (1Cor 15,3):

"O que eu recebi e entreguei a vocês é o mais importante: que o Cristo morreu pelos nossos pecados, como está escrito nas Escrituras Sagradas; que ele foi sepultado e que ressuscitou no terceiro dia como está escrito nas Escrituras; e que apareceu a Pedro e depois aos doze apóstolos..."

A primeira preocupação da comunidade não foi escrever um livro. Foi viver e transmitir uma vida. Isso não diminui o valor das Escrituras, da Igreja. Ajuda-nos, porém, a perceber como surgiram e como têm sua compreensão ligada à compreensão da própria vida da Igreja.

B) A Comunidade recebe as Escrituras do Novo Testamento

Inicialmente, pois, a comunidade não tinha o "Antigo e o Novo Testamentos".

Tinha a "Lei" e os "Profetas" e os Escritos. E tinha as palavras de Jesus, sua vida e seus atos. Vamos ver, brevemente, como surgiu o Novo Testamento.

Se abrimos agora uma edição do Novo Testamento, encontramos quatro divisões mais importantes: Evangelho, Atos dos Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. É bom sabermos logo que aconteceu também aqui o que já tinha acontecido com o Antigo Testamento: os livros ou as partes não estão colocados na ordem em que foram escritos. A ordem atual levou em conta a importância das partes e também as vantagens práticas de uma sistematização.

São estes os livros, ou as partes, que encontramos em o Novo Testamento:

1º) Evangelhos: de Mateus, de Marcos, de Lucas, de João.

2º) Atos dos Apóstolos.

3º) Epístolas: Em primeiro lugar, as cartas de Paulo aos Romanos, aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, aos Tessalonicenses, a Timóteo, a Tito, a Filêmon. Depois, a carta aos Hebreus, as cartas de Tiago, de Pedro, de João e de Judas.

4º) O Apocalipse de João.

Talvez você não imagine, mas a parte mais antiga do Novo Testamento são as duas cartas de Paulo aos Tessalonicenses, isto é: aos cristãos da comunidade de Tessalônica, uma cidade da Grécia. No capítulo 17(1-10) dos Atos dos Apóstolos, podemos ler a história das primeiras conversões nessa cidade. Paulo esteve em Tessalônica lá pelos meados do ano 5O d.C.(depois de Cristo), quando estava fazendo a sua segunda viagem missionária. Em 51, ele mandou sua primeira carta; a segunda é de 52 ou 53.

Com essas duas cartas, começou a formação do Novo Testamento: as comunidades começaram a colecionar e a trocar entre si os escritos dos apóstolos.

Pelos anos de 54 ou 55, foi escrita a carta para a igreja de Filipos. Entre 57 e 58, surgiram as duas cartas para a comunidade de Corinto e para a dos Gálatas. Possivelmente quando estava preso em Roma, entre 61 e 63, é que Paulo escreveu as cartas para os cristãos de Colossos e de Éfeso. Durante esse mesmo tempo teria escrito a pequena carta a Filêmon, um cristão cujo escravo tinha fugido e fora convertido pelo apóstolo. As duas cartas a Timóteo e a carta mandada para Tito, se foram escritas por Paulo, então devem ter sido enviadas entre 64 e 67.

A seguir, temos as cartas de Pedro, de Tiago e a Epístola aos Hebreus e a de Judas. Foram escritas, o mais tardar, nos decênios finais do primeiro século. Não podemos ter certeza completa sobre seus autores.

O primeiro evangelho a ser escrito foi provavelmente o de Marcos, antes ainda da destruição de Jerusalém, acontecida no ano de 70. Segundo a opinião de vários especialistas, o evangelho de Marcos foi precedido por uma primeira redação do evangelho de Mateus, feita em aramaico.Redação essa que depois foi reelaborada, dando origem à nossa atual edição grega. Não podemos saber exatamente quando isso aconteceu.

Nem podemos saber com certeza quando foi escrito o evangelho de Lucas. Alguns acham que foi escrito antes do ano 70; outros preferem dizer que os evangelhos de Lucas e Mateus (o atual) surgiram lá pelo ano 80.

Esses três evangelhos são bastante semelhantes entre si, apresentando quase os mesmos fatos, quase na mesma ordem. Por isso são chamados de Evangelhos Sinóticos, isso porque poderiam ser colocados lado a lado para serem lidos ao mesmo tempo.

Os Atos dos Apóstolos, que narram os primeiros tempos da Igreja, dando um realce maior às pessoas de Pedro e de Paulo, são como que uma continuação do Evangelho de Lucas. Possivelmente esse livro foi escrito lá pelo ano 80.

Como a parte mais recente do Novo Testamento, temos finalmente o evangelho, as cartas e o Apocalipse de João. Até algum tempo atrás havia escritores que atrasavam até o século segundo o aparecimento desses livros. Atualmente, há um certo acordo que marca o aparecimento desses escritos entre os anos 90 e 100.

Nem seria preciso repetir. Esta apresentação é apenas inicial e sumária. É só através de um estudo mais cuidadoso e demorado de cada livro que poderíamos examinar as perguntas sobre o seu autor e a data de seu aparecimento. De momento, o importante é apenas situar no tempo o aparecimento da Bíblia.

2. A NOSSA BÍBLIA E OS SEUS ORIGINAIS

A Bíblia que nós agora usamos é um livro que adquirimos numa livraria,um livro editado há pouco tempo,por uma dessas modernas editoras. É um livro que lemos em língua portuguesa.Mas nós já sabemos que a Bíblia surgiu há muito tempo atrás,livro escrito em outras línguas.Isso nos leva a fazer algumas perguntas: A Bíblia que temos atualmente corresponde aos originais escritos pelos autores? A nossa tradução em língua portuguesa corresponde aos originais escritos em língua hebraica, aramaica e grega?

1. As línguas originais da Bíblia

Os originais da Bíblia foram escritos em três línguas:o hebraíco,o aramaico e o grego.O hebraico é uma língua muito antiga que já existia antes mesmo de os hebreus, isto é, os judeus aparecerem como um povo identificável. Nessa língua hebraica, foi escrito quase todo o Antigo Testamento. Algumas partes, porém, chegaram até nós apenas em aramaico, uma outra língua adotada mais tarde pelo povo judeu. Nessa língua, temos cinco capítulos do Livro de Daniel, algumas passagens do Livro de Esdras e umas frases do profeta Jeremias. Talvez também essas partes tenham sido escritas originalmente em hebraico. Outras partes chegaram até nós numa tradução em língua grega: o Livro do Eclesiástico (um terço do original hebraico foi descoberto em 1896), os Livros de Baruc, de Tobias, o 1º Livro dos Macabeus, o de Judite e algumas partes de Daniel e Ester. Na língua grega, foram escritos dois livros do Antigo Testamento: o Livro da Sabedoria e o 2º Livro dos Macabeus.

O Novo Testamento foi escrito originalmente em grego, que era a língua mais usada no tempo. Só o Evangelho de Mateus é que foi escrito originalmente em aramaico. Esse original, porém, perdeu-se e só conhecemos a segunda redação feita em grego.

2. As primeiras traduções

A Bíblia foi sempre considerada como um livro muito importante, um livro sagrado que devia ser conhecido por todos. É por isso que surgiram as traduções para os que não podiam compreender a língua original.

A primeira tradução foi feita uns 200 ou 300 anos antes de Cristo. Os judeus que viviam no Egito já não entendiam o hebraico. Foi feita, então, a tradução grega, chamada de "Tradução dos Setenta. Ganhou este nome porque, como contavam, tinha sido feita por setenta sábios. Essa tradução grega do Antigo Testamento era a Bíblia usada pelos primeiros cristãos e, segundo ela, são feitas quase todas as citações que aparecem em o Novo Testamento.

Nos primeiros séculos depois de Cristo foram feitas outras traduções que procuravam uma fidelidade maior ao original hebraico.

Mas não eram só os judeus que viviam no estrangeiro que tinham dificuldade para entender o original hebraico da Bíblia. A partir do cativeiro na Babilônia, mesmo os judeus da Palestina já não falavam o hebraico. Nas Sinagogas (lugar de reunião da comunidade), continuava a ser lido o texto hebraico, mas havia sempre uma pessoa encarregada de fazer uma tradução em aramaico para que todos pudessem compreender a palavra de Deus. Essas traduções foram, aos poucos, sendo postas por escrito e eram mais ou menos fiéis ao texto original. Isso porque, muitas vezes, faziam uma espécie de tradução adaptada às situações do momento.

3. As traduções cristãs

Já nos primeiros séculos da Igreja foram feitas diversas traduções, parciais ou totais, para uso das comunidades cristãs. Até o fim do século segundo, a maioria das comunidades cristãs, mesmo nas regiões de influência romana, falava e entendia o grego popular. Aos poucos, porém, a língua latina, o latim, reconquistou terreno. Começaram assim a surgir as traduções em latim. Parece que a mais antiga é uma tradução chamada de "Ítala porque fora feita na ltália, e recomendada por Santo Agostinho.

Em 382, o Papa Dâmaso pediu que São Jerônimo, um homem muito preparado, fizesse uma revisão da tradução dos Salmos. Terminada essa encomenda, em 392, ele começou uma tradução de todo o Antigo Testamento, diretamente do hebraico. O trabalho ficou pronto em 405. É a tradução conhecida como "Vulgata Latina. Foi esse o texto usado na primeira edição impressa da Bíblia, feita por Gutenberg, em 1542.

Como vimos, o Novo Testamento tinha sido escrito em grego. A primeira tradução em latim foi feita provavelmente lá pelo ano 150. Também do Novo Testamento São Jerônimo fez uma nova edição, revendo as traduções anteriores. É bom notar que, além dessa tradução latina, a antigüidade conheceu traduções em várias outras línguas.

Ainda fica em pé a pergunta inicial: será que todas essas traduções conservaram fielmente o sentido da Bíblia original? Vamos, então, ver como a Bíblia chegou até nós.

4. Os originais do Antigo Testamento

Vimos como foi longa a história da formação da Bíblia. Foi um trabalho realizado ao longo de muitos séculos, feito por muitas pessoas, em muitos lugares e circunstâncias diversas. Quando perguntamos se a nossa Bíblia corresponde aos originais, somos levados a perguntar também se esses originais escritos pelos próprios autores ainda existem. Não. Não existem mais. Nem isso é de se admirar. Os livros antigos, mesmo em sua fase de maior aperfeiçoamento técnico, eram "rolos" ou cadernos de pergaminho ou papiro. Esses materiais não podiam atravessar sem estragos os séculos. A traça, a umidade, o uso, as viagens, as guerras e os incêndios fizeram o seu trabalho de destruição.

A cópia mais velha de todo o Antigo Testamento em hebraico é lá do ano 950 depois de Cristo. Estava guardada na cidade de Alepo, na Síria. Durante algum tempo pensou-se que tivesse sido destruída num incêndio em 1950. Depois reapareceu e atualmente se conserva em Jerusalém. Desse texto existe uma cópia feita em 1008, que serviu como base para a edição atual do texto
hebraico.

A situação é semelhante, e até mesmo pior, para os outros escritos antigos. Podemos dar alguns exemplos. Sófocles, Ésquilo, Aristófanes são alguns escritores gregos. Entre os originais escritos por eles e as cópias que temos de suas obras, há uma distância de 1400 anos. Essa distância é de 1600 anos para as obras de Eurípedes e Catulo; 1300, para as obras de Platão.

   Até há alguns anos atrás, o manuscrito mais antigo de uma parcela do Antigo Testamento era do século quarto depois de Cristo. Em 1902, foi encontrado, no Egito, um pedaço de papiro do século segundo depois de Cristo, contendo o Decálogo e um fragmento do Deuteronômio. Foram encontrados ainda outros papiros mais recentes, todos contendo apenas fragmentos do texto bíblico.
  
Em 1947, houve uma importante descoberta. Um pastor árabe estava procurando uma cabra perdida, nas margens rochosas do Mar Morto. Enquanto estava descansando, atirou uma pedra numa fenda nas rochas. Escutou um barulho de alguma coisa que se quebrava. Foi investigar, encontrou uma gruta e lá dentro alguns potes de barro, ainda cobertos com a tampa original. Continham rolos de pergaminho. Mais tarde foram feitas outras investigações e encontrou-se uma verdadeira biblioteca antiga. Seria a biblioteca de um antigo mosteiro de uma seita hebraica, abandonado pouco antes da destruição de Jerusalém, lá pelo ano 68 d.C.
  
Os rolos de pergaminho continham principalmente textos da Bíblia: eram cópias muito antigas, algumas do ano 200 ou 300 a.C. Pelos estudos feitos até agora, esses antigos manuscritos confirmam a fidelidade do nosso texto hebraico atual. Isso vem confirmar o que já tinha sido observado: apesar de todas as variantes encontradas nos manuscritos, podemos dizer que houve um interesse muito grande pela conservação fiel dos textos originais. As diferenças nunca são tão grandes a ponto de modificar fundamentalmente o sentido das passagens.   

Que haja essas diferenças nos manuscritos, isso podemos compreender facilmente. Antigamente as cópias eram feitas a mão, uma a uma. Muitas vezes uma pessoa ia ditando o texto para vários copistas. Bastava que um ouvisse mal uma palavra e já havia uma variante no texto. Outras vezes, o copista esquecia uma letra ou uma palavra, ou repetia ou trocava. Ou, então, o texto original não estava muito claro. Acontecia também que um ou outro copista achava bom corrigir o texto original. É por isso que os especialistas fazem estudos cuidadosos, comparam os diversos manuscritos e assim estabelecem cientificamente o texto mais seguro. Nesse trabalho levam em conta também as antigas traduções. Esse estudo chama-se "Crítica Textual"; tem regras e métodos que agora não vêm ao caso.

   5. Os originais do Novo Testamento
 
 Atualmente temos uns cinco mil manuscritos, sendo que uns cinqüenta e três contêm todo o Novo Testamento. A situação do Novo Testamento é muito melhor que a de todos os escritores antigos. Da maioria deles temos manuscritos somente a partir do século nono d.C., e assim mesmo em número bem reduzido. Do Novo Testamento temos dezessete manuscritos do século quarto e vinte e sete do século sexto. Temos ainda citações encontradas em escritores do século segundo. Isso quer dizer que entre os originais e as cópias temos a distância de uns 300 anos apenas. Foi encontrado até um papiro do ano 130 que reproduz uma passagem do evangelho de João. É uma cópia feita uns quarenta anos depois do original do evangelista.

   6. A Bíblia atual é fiel aos originais   

Durante séculos os especialistas fizeram um longo trabalho de estudo e de comparação entre as diversas cópias do Antigo e do Novo Testamento. Chegaram à conclusão de que os nossos textos atuais são fiéis aos originais. É verdade que o texto hebraico atual apresenta alguns defeitos. Com o auxílio, porém, das antigas traduções é possível fazer a sua correção quase perfeita. A situação do Novo Testamento é muito melhor. O texto grego que temos praticamente não apresenta dúvidas. Pelo menos dúvidas que tragam dificuldades insuperáveis. Segundo os especialistas, o nosso Novo Testamento em grego chegou até nós quase exatamente como foi escrito pelos seus autores lá na segunda metade da primeiro século.  

E as nossas traduções correspondem ao original? A fidelidade dessas traduções passa por um duplo controle. Os estudiosos que conhecem as línguas originais podem dizer até que ponto a tradução está bem feita. E há também o controle exercido pela Igreja, que vigia para que as traduções não falsifiquem o sentido da revelação feita por Deus. É claro que temos essa garantia só para as traduções que tenham a aprovação da autoridade da Igreja.  

3.TODOS OS LIVROS DA BÍBLIA
  
Abrindo a sua Bíblia no índice, você vai ver ali a relação de 72 "livros": 45 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. Parece muito natural. Vamos, porém, fazer uma pergunta:

Por que todos esses e só esses livros fazem parte da Bíblia? Por que só eles e todos eles são Palavra de Deus?
  
Os judeus tinham muitos livros. E nem todos eram considerados como fazendo parte das "Escrituras", do conjunto de escritos considerados como normativos, como lei, para a vida do povo. Principalmente nos últimos 300 anos antes de Cristo, apareceram muitos livros de fundo religioso, de estilo bastante semelhante aos livros da Bíblia. Esses livros até mesmo tentavam se apresentar com a mesma autoridade de Deus. E, no entanto, acabaram ficando fora da lista oficial dos livros sagrados.
  
O mesmo aconteceu nos primeiros tempos da Igreja. Dentre todos os livros que circulavam entre os cristãos, somente alguns foram aceitos como "escritos por Deus".
  
Houve, pois, uma escolha por parte dos judeus e dos cristãos. Vamos ver por que foi feita essa escolha, quando foi feita e como.
  
1. O Cânon
  
A lista, o catálogo oficial dos livros que fazem parte da Bíblia tem um nome técnico: "Cânon. Sendo assim, os livros aceitos como "bíblicos" são chamados de "livros canônicos".
  
A palavra "Cânon" quer dizer: norma, regra, medida. Livros canônicos são, então, os livros sob a direção de Deus, e que devem servir de regra, medida e norma para a nossa fé e a nossa vida.

2. O que nos diz o Novo Testamento
  
Há duas passagens que devemos examinar. A primeira é da 2ª Carta a Timóteo
(3,16); a outra é da 2ª Carta de Pedro (1,20).



Timóteo era um discípulo de Paulo, escolhido por ele como responsável pela continuação de sua obra. Na segunda carta que lhe foi dirigida, lemos o seguinte: "Tu, porém, permaneces firme naquilo que aprendeste e de que tens convicção. Sabes de que mestres o aprendeste. E desde a infância conheces as sagradas letras. Elas te podem dar a sabedoria que conduz à salvação por meio da fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, convencer, corrigir e educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja completo, equipado para toda boa obra" (3,14-17). Nesse texto podemos notar o seguinte: Timóteo, desde pequeno, recebeu uma formação religiosa. Sabemos que era filho de judeus piedosos. Pois bem. Por essa formação, aprendeu a fé e aprendeu também a conhecer as Sagradas Escrituras como vindas de Deus. Como judeu e como cristão, ele acreditava que as Escrituras podiam "dar a sabedoria que conduz à salvação. Sabia também que tinham esse valor porque tinham sido inspiradas por Deus.   

Vamos examinar um pouco o sentido dessa palavra: "inspirada". É a tradução de uma palavra grega que poderia também ser traduzida por "soprada", assoprada", "espirada. A palavra "espírito", que usamos tantas vezes, tem a mesma origem, liga-se à idéia de "sopro, vento". O vento sempre foi alguma coisa misteriosa para os antigos. Parece que vem de um lugar misterioso, pode ser sentido, mas não pode ser apalpado e segurado, parece um ser sem corpo. O vento é também uma força de destruição, ou uma brisa leve que refresca. Semelhante ao vento e igualmente misteriosa para os antigos era a nossa respiração. Enquanto respiramos, estamos vivos. E por isso chegaram quase a identificar a respiração com a própria vida, com a alma, com a força que nos faz viver. Espírito, sopro, respiração, era para eles essa realidade distinta de nosso corpo material e que nos faz viver. A partir daí passaram também a chamar de espírito, sopro, vento essa força misteriosa que parece arrastar o homem para o bem ou para o mal. Assim podemos compreender porque chamavam de "Espírito" a força divina, invisível e misteriosa que nos leva para a salvação. Muitas vezes encontramos na Bíblia referências ao "Espírito, Sopro de Javé", que orientava e dava força aos profetas, aos reis, a todos os que deviam fazer alguma coisa para o bem do povo. Por isso, quando São Paulo diz que a Escritura Sagrada foi "inspirada, soprada, espirada" por Deus, está querendo dizer que a Bíblia vem de Deus, é a manifestação de Deus para nós. Quem escreveu a Bíblia escreveu porque foi movido, levado, "soprado, animado" por Deus.
  
A afirmação de Paulo é completada pelo que lemos na 2ª Carta de Pedro (1,20). Pedro insiste na veracidade da sua doutrina. Não está ensinando coisas inventadas. Ele mesmo viu a majestade do Cristo transfigurado no alto do monte. A sua doutrina é também confirmada pela Escritura, pela palavra dos profetas. É por isso que, a partir do versículo 19, Pedro é levado a falar do valor da palavra dos profetas que encontramos na Escritura. Suas afirmações valem, de certo modo, para a Bíblia toda: "Deveis saber, antes de tudo, que nenhuma profecia da Escritura é objeto de interpretação pessoal, visto como jamais uma profecia foi proferida por vontade humana; mas sim sob o impulso do Espírito Santo é que falaram os homens da parte de Deus" (1,20-21). Conforme o que vimos logo acima, podemos ler assim esse final: "sob o impulso do Sopro Santo é que falaram os homens da parte de Deus".

4. Conceito católico de inspiração  

Os ensinamentos oficiais da Igreja encontram-se no Concílio Vaticano I(1870), nas cartas encíclicas de Leão XIII (Providentissimus, de 1893), de Bento XV (Spiritus Paraclitus, de 1920), de Pio Xll (Divino afflante Spiritu, de 1943), e no Concílio Vaticano II.
  
A doutrina do Vaticano II, que reassume a doutrina anterior, encontra-se no capítulo terceiro da "Dei Verbum", a constituição sobre a Palavra de Deus, no número 11. Vamos estudar e analisar esse texto:
  
"Os livros do Antigo e do Novo Testamento, na sua totalidade, foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo e, portanto, Deus é o seu autor. Para que os livros sagrados fossem escritos, Deus fez assim:

- escolheu alguns homens;

- serviu-se deles, com suas faculdades e capacidades;

- agiu neles e por eles para que, como verdadeiros autores,

- escrevessem tudo e só aquilo que Ele próprio queria".
  
Vamos repassar os diversos elementos:  

A) Deus escreveu. Deus é o autor da Bíblia  

É muito importante notar que a iniciativa é de Deus, dele é a responsabilidade pelo aparecimento da Sagrada Escritura. Do mesmo modo como decidiu livremente manifestar-se a nós, entrar em diálogo conosco, assim também livremente decidiu agir para que sua mensagem fosse conservada por escrito. Como vimos na história do aparecimento da Bíblia, a composição inicial não incluía necessariamente uma redação imediata por escrito. O "livro" podia, durante muito tempo, ser transmitido oralmente. Pois bem, já nessa fase da "composição" estava presente a ação divina.  

B) Deus escolheu alguns homens  

A liberdade divina mostra-se também na "escolha" das pessoas que seriam usadas. Escolha totalmente gratuita, não exigida por nenhuma qualificação prévia dos escolhidos.  

Vamos notar ainda que Deus escolheu algumas pessoas e por meio delas quis comunicar-se a todos. É o que sempre notamos no modo de proceder de Deus para a nossa salvação: escolhe sempre alguns como instrumentos e intermediários seus. Não se dirige imediatamente, diretamente a cada um. Não dependemos só de Deus; dependemos também uns dos outros para a nossa realização.

 C) Deus serviu-se desses homens, com suas faculdades e suas capacidades
  
Ninguém, mais do que Deus, tem respeito pelo homem. Deus nunca usa o homem como nós usamos um instrumento qualquer; nunca usa o homem como escravo. Sempre que escolhe alguém, é para que livremente colabore com ele como homem livre e inteligente. Os homens escolhidos para serem autores humanos da Bíblia não foram transformados em máquinas ou robôs manobrados. Serviram a Deus com todas as suas faculdades e capacidades humanas. Queriam escrever, sabiam o que escrever, sabiam o que pensar sobre as pessoas, os acontecimentos e as coisas, tinham e conservavam seu modo pessoal de sentir e de reagir, o seu jeito pessoal de se exprimir, a sua cultura grande ou pequena.
  
D)Deus agiu neles e por eles para que, como verdadeiros autores, escrevessem tudo e só aquilo que ele próprio queria
  
Isso quer dizer que Deus fez com que os hagiógrafos (os escritores sagrados) soubessem o que iam escrever e também quisessem escrever.  

Deus fez com que eles soubessem o que iam escrever. Quando alguém desconhece uma coisa, podemos ensinar-lhe. Podemos ajudar alguém a compreender o que já conhece. Podemos ajudar alguém a encontrar a palavra exata para exprimir o que está vendo ou sentindo. Podemos ajudar alguém a julgar devidamente, a dar o valor exato às pessoas e aos seus atos, aos acontecimentos e às coisas. Nós podemos fazer tudo isso falando com a pessoa ou escrevendo para ela. Deus também pode fazer-nos saber alguma coisa, compreender, julgar e exprimir com palavra. Só que, para fazer isso, Deus não precisa de palavras. Pode entrar diretamente em contato conosco, pode atingir diretamente a nossa inteligência, pode iluminar-nos para conhecermos a verdade e exprimi-la com palavras certas.  

Pois bem, foi isso que Deus fez com os escritores e compositores da Bíblia. Fez com que eles recebessem um conhecimento sobrenatural sobre Deus e sobre seus planos. Um conhecimento sobrenatural, que nunca poderiam de modo algum conseguir apenas com o esforço humano. Deu-lhes uma sabedoria sobrenatural para que soubessem dar um julgamento exato sobre as pessoas, os acontecimentos e as coisas. Fez com que escolhessem as palavras e o jeito, o estilo, convenientes para o que deviam comunicar.

Os hagiógrafos podiam conhecer muitos fatos, ou por terem visto ou por terem ouvido contar. Nesse caso, recebiam uma ajuda especial para que pudessem dar um julgamento certo e soubessem como se exprimir. Iluminados por Deus é que eles percebiam que era conveniente escrever o que sabiam. Em tudo isso podemos perceber como Deus e homem colaboravam estreitamente: o homem conhecia, julgava, escolhia, exprimia, mas estava sendo sempre iluminado e inspirado por Deus.  

Já temos agora o hagiógrafo que sabe aquilo sobre o que poderia escrever. Iluminado por Deus faz julgamentos corretos. Percebe mesmo que seria conveniente escrever tudo isso. Mas para que Deus seja realmente o autor, o responsável pela Bíblia, não basta que por si mesmo o homem se resolva a escrever. Também essa decisão, também a iniciativa deve ser de Deus. É preciso que ele, agindo sobre a vontade do homem, o leve a agir.  

Quando nós queremos que alguém faça alguma coisa, procuramos convencê-lo, apresentando motivos ou mandando ou forçando. Não foi assim que Deus levou os homens a escrever a Bíblia. Deus, com o seu poder, agiu diretamente sobre a vontade deles. Fez com que eles quisessem escrever. Quando pela sua graça, pela sua ajuda, Deus nos convida a fazer o bem, nós muitas vezes não fazemos o que Deus quer. Se fazemos, fazemos ajudados por Deus, mas a decisão é nossa, a responsabilidade é nossa, pois a ação é nossa e não de Deus. No caso da Bíblia, a situação é bem diferente: quando Deus resolve servir-se de uma pessoa para escrever, ele vai conseguir isso infalivelmente. Ele, que é nosso criador, que nos deu uma vontade livre, ele sabe como agir sem forçar a nossa liberdade, mas conseguindo infalivelmente que façamos o que ele quer.  

Para compreendermos isso seria preciso que pudéssemos conhecer perfeitamente o próprio Deus. E Deus vai muito além de nossa compreensão. Apesar disso, mesmo sem compreender como, acreditamos que Deus pode nos levar a fazer livremente o que ele livremente decidiu.  

Repetindo: o conhecimento, as afirmações, as verdades que encontramos na Bíblia são ao mesmo tempo de Deus e dos homens que as escreveram. A Bíblia existe porque Deus e os homens hagiógrafos resolveram escrever. Os homens colaboraram com Deus, mas a iniciativa partiu dele. Ele é o autor principal. Usando uma comparação, podemos dizer que os homens foram instrumentos de Deus. Instrumentos inteligentes e livres.  

Uma pessoa que escreve, além de sua inteligência e vontade, usa também sua memória, sua imaginação, sua sensibilidade, seu gosto, sua arte, seu cérebro, seus nervos, seus músculos, suas mãos para escrever ou seus lábios para ditar. Pois bem: sobre tudo isso, houve uma ação positiva de Deus para que a Bíblia fosse escrita. Vemos assim, mais uma vez, como a Sagrada Escritura é totalmente obra de Deus e do homem.  

Agora já podemos compreender melhor a idéia de inspiração que encontramos desde o começo deste capítulo: "Os livros do Antigo e do Novo Testamento, na sua totalidade, foram escritos sob inspiração do Espírito Santo e, portanto, Deus é o seu autor. Para que os livros sagrados fossem escritos, Deus fez assim: escolheu alguns homens, e serviu-se deles com suas faculdades e capacidades. Agiu neles e por eles para que, como verdadeiros autores, escrevessem tudo e só aquilo que Ele próprio queria".  

Agora também já podemos ler o texto tal como foi escrito pelo papa Leão XIII em 1893: O Espírito Santo, por uma força sobrenatural, os impeliu e moveu a escrever; prestou-lhes assistência enquanto escreviam, de maneira a conceberem exatamente, quererem transmitir fielmente, e escreverem de modo a salvaguardar a verdade infalível, tudo e só aquilo que lhes era ordenado. Caso contrário, Deus não seria o autor da Escritura Sagrada".  

5. A BÍBLIA NÃO ERRA
  
1. Mentalidade hebraica e linguagem bíblica
  
Vamos, pois, estudar inicialmente um pouco da mentalidade dos judeus e do seu jeito de se exprimir.  

No salmo 62, versículo 6, lemos: Minha alma será saciada de gordura e de tutano, de meus lábios alegres ressoará o teu louvor. Nós poderíamos dizer: O que é isso? a alma não come! É verdade. Mas, para o judeu, um bom almoço era aquele com muita carne gorda. Um bom almoço alegra. Por isso o salmista, em vez de dizer: "Minha alma estará feliz junto de Deus", diz: "Junto de Deus minha alma será alimentada com carnes gordas e tutano. Pode não parecer piedoso. Mas assim é que rezavam.
  
No salmo 118,109, encontramos: "Minha vida está sempre em minhas mãos". Ter alguma coisa nas mãos é estar pronto a entregar, a perder. Ter a vida nas mãos" queria dizer: estou pronto a perder a minha vida, estou quase morrendo, estou em grande perigo.
  
Com a mão pegamos as coisas, tomamos posse. Em vez de dizer que alguém era rico, os judeus diziam: "Ele tem a mão grande. Quem era pobre ou avarento "tinha as mãos pequenas".
  
Esses exemplos bastam para mostrar como os judeus usavam uma linguagem muito concreta, quase sem termos abstratos. Aliás, hoje ainda usamos linguagem semelhante. Se alguém nos diz que "está na fossa", "foi para o brejo", "foi para o buraco", entendemos logo o que quer dizer e não perguntamos qual a fundura do buraco nem onde é o brejo.  

 Como os orientais em geral, os judeus gostavam de falar de um modo teatral. Assim, sem muitas explicações, a idéia se tornava clara, quase palpável. Usavam expressões que, analisadas friamente, são exageros. Um rei, para dizer que seu exercito era numeroso, dizia que a poeira da Samaria não seria bastante para encher as mãos de seus soldados(1º Livro dos Reis 20,10). Em vez de dizer: "Houve fome em muitos países", diziam: "Houve fome na terra inteira. Há uma passagem do Evangelho(Lc 14,26) em que Jesus diz: "Quem não odiar pai, mãe... não pode ser meu discípulo. Odiar, no caso, significa amar menos do que ao Cristo.  

A língua hebraica não tinha os mesmos recursos das línguas modernas. Nós temos palavras que indicam claramente a comparação entre os termos. Nós dizemos claramente: É maior o número dos chamados e menor o número dos escolhidos. Deus quer mais a misericórdia do que o sacrifício. Os judeus diziam: "Muitos são os chamados e poucos os escolhidos" (Mt 22,14). "Quero a misericórdia e não o sacrifício" (Mt 9,13).  

Usavam comparações e imagens que não podem ser tomadas ao pé da letra. As idéias abstratas estavam ligadas a coisas materiais. Por exemplo:

Fraqueza: carne, cinza, poeira, flor que murcha, cera derretida.

Força: montanha, rochedo, bronze, tempestade, exército.

Glória: luz, brilho, relâmpago.

Fartura: leite, mel, água, azeite.
  
Esse modo concreto de pensar e de falar é que levava os judeus a falarem das coisas e de Deus usando expressões que realmente só se aplicam aos homens. Por exemplo:

as cisternas, os montes, as árvores devem bater palmas e gritar de alegria;

o sangue inocente pede vingança divina;

Deus tem rosto, nariz, ouvidos, boca, lábios, olhos, voz, braços, mãos e pés. Está revestido de um manto, senta-se num trono de rei. Tem desgosto, ódio, sentimentos de agrado, alegria, arrependimento. Tem até um nome próprio.  

Na linguagem da Bíblia, os números não têm a mesma importância nem o mesmo significado que têm para nós. Quando damos um número, procuramos ser matematicamente exatos; interessa-nos a quantidade real. Para os judeus os números tinham todo um significado simbólico, indicava o sentido dos acontecimentos ou as qualidades das pessoas. A idade dos patriarcas, cem ou mais anos, não era contada em razão dos anos realmente vividos, mas em razão da veneração que mereciam, do quanto eram queridos por Deus. No capítulo quinto do Gênesis, encontramos uma série de dez gerações desde Adão até o patriarca Noé. Dez era apenas o número que indicava uma série completa e final. Falando de dez patriarcas, o hagiógrafo queria abarcar todos os acontecimentos, todas as gerações entre Adão e Noé, fossem lá quais e quantos fossem. Não estava, de modo algum, querendo ensinar que de fato tinha havido apenas uma série de dez gerações. De modo semelhante, Jesus fala das "dez virgens"; São Paulo menciona os "dez adversários" que nos tentam separar do Cristo (Rm 8,38s), e os "dez vícios" que nos podem excluir do Reino de Deus (1Cor 6,9s). Os meses do ano são doze. Por isso esse número também significava a perfeição, a totalidade.  

Quando damos um número, estamos de fato excluindo qualquer quantidade maior ou menor, a não ser que digamos claramente o contrário. Os judeus indicavam o número que interessava no momento. Podemos dar alguns exemplos: Mc. 11,2; Lc 19.30 e Jo 12,14 dizem que Jesus entrou em Jerusalém montado em um jumento. Mt 21,2 fala, porém, de uma jumenta e de um jumentinho. Mc 10,46 diz que, ao sair de Jericó, Jesus curou um cego; Mt 20,30 diz que dois foram os cegos curados. Além do mais, precisamos ainda lembrar que muitas vezes houve engano dos copistas na transcrição dos números. Engano fácil de entender já que os números eram representados com letras do alfabeto, bastante parecidas entre si.  

Bastam esses exemplos para percebermos o cuidado necessário para termos uma correta compreensão dos textos bíblicos.  

7. COMO LER A BÍBLIA
  
O Segundo Concílio do Vaticano nos recomenda muito a leitura da Bíblia. Lembra até uma frase de São Jerônimo: "Quem não conhece as Escrituras, não conhece Cristo".
  
Logo a seguir o Concílio diz: "Lembrem-se de que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada pela oração para que se estabeleça o diálogo entre Deus e o homem. Como diz Santo Ambrósio, lendo a Escritura, nós ouvimos Deus; pela oração, nós lhe falamos.
  
1. Para uma leitura proveitosa da Bíblia é preciso ter algumas noções básicas, algumas informações sobre o ambiente em que foi escrita, sobre o seu estilo etc. Foi isso que tentamos ver até agora, de um modo muito simples e superficial, é claro.  

2. O mais importante, porém, é termos uma atitude correta diante da Bíblia: uma atitude de fé. Em primeiro lugar, temos de acreditar que a Bíblia é para nós a palavra de Deus. Quem se aproximar sem essa convicção, poderá satisfazer sua curiosidade, poderá encontrar beleza literária, poderá até se tornar um "especialista. Não encontrará, porém, o alimento da palavra que salva.
  
Essa atitude de fé, essa atitude de quem acredita, exige que aceitemos a Bíblia como palavra de Deus recebida na Igreja, nossa comunidade de fé e de vida. Precisamos ler a Bíblia com a Igreja para ouvirmos realmente a palavra de Deus.  

3. Pela fé, somos levados à docilidade, à atitude de quem está disposto a ser ensinado, de quem quer ouvir e aprender. Docilidade que é "abertura" para as coisas divinas, que devem ser julgadas e compreendidas de uma forma diferente da compreensão e do julgamento que temos para com as coisas humanas. Essa compreensão superior só nos é possível sob a iluminação da graça de Deus. Do poder de Deus que nos dá uma "co-naturalidade", uma sintonia com as realidades divinas. Como disse Jesus, só o homem pode compreender o que existe no coração do homem. Do mesmo modo, só podemos compreender o que há no coração de Deus na medida em que, pela graça, participamos de algum modo da natureza do próprio Deus.  

Isso quer dizer que, para podermos compreender a Bíblia, devemos estar participando da vida divina pela graça. O pecado, que nos separa de Deus, fecha-nos também os olhos para a compreensão das coisas divinas.  

4. Sendo assim, é fácil perceber que a nossa leitura da Bíblia deve ser uma "oração". Em vários sentidos. A começar pela oração de quem pede a Deus que nos fale e que nos abra o coração. De quem insiste na prece diante de uma passagem mais obscura ou que nos parece encerrar uma mensagem mais rica do que percebemos à primeira vista. Prece de quem se sente sem forças para aceitar a exigência de certos convites ou mesmo de certos mandamentos e normas. Oração de louvor, ao percebemos a grandeza de Deus, do seu amor, da sua bondade, da sua misericórdia. É claro que essa atitude de oração exige que a nossa leitura seja calma, vagarosa, tranqüila, ouvindo, saboreando, assimilando. Afinal, o importante não é ler muito, mas ler bem.  

5. Sim, porque devemos ler a Bíblia não apenas para saber, mas para viver. Para aos poucos começarmos a ser como Deus quer que sejamos. Para irmos assimilando a sua maneira de pensar, julgar e querer. Essa mudança em nossa vida, geralmente, não acontece de repente, nem toda de uma vez. Supõe um contato demorado, repetido e continuado com a Palavra de Deus. E, uma vez que a nossa vida não é sempre igual, será preciso sabermos procurar na Bíblia a orientação apropriada para cada situação que estivermos vivendo no momento. Tomando sempre o cuidado, nunca é demais repetir, de não obrigarmos a Bíblia a dizer o que queremos ouvir.  

6. Não é só a nossa vida pessoal e "religiosa" que devemos pôr em julgamento diante da palavra de Deus. É toda a nossa vida, em toda a sua complexidade e em todos os seus aspectos, mesmo aqueles que nada têm a ver com "religião". É toda a vida da sociedade que devemos tentar compreender e julgar à luz da Bíblia: a política e a economia, as relações de trabalho, a comunicação, a arte, o lazer, toda a realidade humana, afinal. Do presente e do passado, tentando ainda encontrar rumos para o futuro.

  7. Levando em conta que a Bíblia se formou por inspiração de Deus, mas ao mesmo tempo se formou no contexto da vida de uma comunidade o povo judeu e depois a Igreja , uma boa leitura da Bíblia supõe um contato contínuo com essa mesma comunidade. Primeiro pela participação na sua vida e na sua atividade. Depois, por um intercâmbio de experiência, esclarecimento, anseios e preocupações. Pela procura de irmãos mais esclarecidos ou mais experientes que nos esclareçam e resolvam nossas possíveis dúvidas. Exatamente aí está a grande utilidade dos "Círculos Bíblicos" e de outros grupos semelhantes para a leitura e a reflexão sobre a Bíblia. E sempre que possível, ou necessário, podemos encontrar um auxílio muito grande nos jornais, revistas, livros, pregações, cursos e programas de rádio oferecidos pela nossa comunidade.  

As páginas que você leu não terão sido inúteis, se você agora se sentir animado a procurar maiores esclarecimentos e, principalmente, se sentir animado a um contato continuado com a Bíblia, a Palavra de Deus encarnada em pobres palavras humanas.